Maio 9, 2008 by LA
(Publicado no jornal Meia Hora, 8/5/200
Tal como a Revolução Francesa, Maio de 68 é um daqueles acontecimentos tipicamente franceses que a França apresenta como o acontecimento mais importante da História da humanidade. A Revolução Francesa foi a última das três grandes revoluções “liberais” (depois da inglesa e da americana); Maio de 68 apareceu no final de duas décadas de profundas transformações. A Revolução Francesa (em nome da libertação da humanidade) engendrou o terror jacobino e o império de Napoleão; Maio de 68 identificou-se com algumas das mais autoritárias soluções políticas (como o maoísmo e outros derivados comunistas). Tal como na Revolução Francesa, os franceses não fizeram o que julgaram estar a fazer.
As coisas verdadeiramente importantes desses tempos deveram menos àquelas semanas de tumulto do que aos contributos do crescimento económico capitalista (que trouxe uma prosperidade jamais antes vista), da indústria farmacêutica (que trouxe a pílula) ou da indústria discográfica (que trouxe Elvis, os Beatles, os Rolling Stones ou Bob Dylan). Graças a tudo isto, o modo de vida da juventude estava em plena mutação. De resto, Maio de 68 introduziu neste quadro uma dimensão política que apenas confundiu as coisas. Enquanto as mudanças sociais e culturais podiam perfeitamente ser acomodadas pela sociedade burguesa (como aliás foram), o que eles recusavam era a sociedade ocidental no seu todo. Muitas vezes em nome de nada (o que politicamente também significava nada), outras vezes em nome de soluções políticas repugnantes.
A verdade é que o capitalismo adoptou perfeitamente estes seus filhos então rebeldes. Passaram 40 anos e, hoje, são eles os burgueses instalados. Muitos governam-nos, outros lideram empresas, outros vivem uma pacata vida próspera. As suas causas tornaram-se as causas convencionais de hoje. É isso que explica que o nosso jornal diário de referência trouxesse no outro dia um longo suplemento de celebração beata do evento. E é isso que explica que Cohn-Bendit, lucidamente, peça para esquecer Maio de 68. Porque, diz ele, “ganhámos”. É por terem ganho que as comemorações têm um ar tão estafado de efeméride oficial. Eles julgaram estar a abolir o capitalismo. Afinal, estavam só a criar uma sua nova encarnação. Mas não o perceberam à época. Será que hoje já o perceberam?
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Maio 5, 2008 by LA
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Maio 5, 2008 by LA
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Abril 28, 2008 by LA
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Abril 28, 2008 by LA
(Publicado no jornal Meia Hora, 24/4/200
Afinal, talvez o mundo tenha subvalorizado Luís Filipe Menezes. Até quinta-feira passada ele era o bombo em quem toda a gente gostava de dar a sua pancadinha. De repente, provocou um verdadeiro terramoto político. Foi muito interessante constatar o pânico que encheu certas almas no seu próprio partido. Sem o saco de encher pancada, ficaram subitamente desprovidos de objectivo. Até quinta-feira, ele era uma espécie de usurpador que não merecia o lugar. Estava na hora de se ir embora. Quando se foi embora, cumprindo os desejos das ditas almas, passou a ser aquele que partiu de forma irresponsável.
Eis algo que não acontece por acaso. Até então, Menezes era acusado de tudo: de ser inconstante, de não ter programa, de defender isto e o seu contrário no espaço de 24 horas. Em suma, de ser vazio. A ideia implícita nestas acusações era a de que eles, os acusadores, sim, tinham programa. Mas quando Menezes se foi embora verificou-se que também eles eram vazios e que a única coisa que os enchia era encherem Menezes. Na realidade, com o seu gesto, Menezes confirmou o seu vazio, mas também revelou o dos outros. Já lá vai uma semana e ainda está para se ouvir uma ideia válida da parte daqueles que tanto o zurziram. E não é por falta de candidatos, que de um dia para o outro apareceram como cogumelos.
No PSD abunda o manobrismo e a remoção de tapetes. Falta é o trabalho que permita apresentar um programa político consistente. Esse trabalho não se faz andando por aí a bofetear o Menezes do dia mas antes estudando propostas. E há tanto por onde pegar: desde a reforma da despesa pública à reforma da segurança social, passando pela da fiscalidade e da administração pública, sem esquecer algumas ideias que ajudem a economia a sair da última década de marasmo, e muitas outras coisas que o espaço aqui não permite enumerar. Não admira que muitos votantes do PSD prefiram o PS de Sócrates. Pelo menos é o que as sondagens mostram: o PS mantém-se em torno dos 40%, enquanto a esquerda cresce (ou seja, foge do PS), chegando hoje aos 20% de votos. Só há um sítio onde o PS os pode ter ido buscar: ao PSD. Como as coisas se apresentam, é provável que assim continue a ser.
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Abril 24, 2008 by LA
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Abril 24, 2008 by LA
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Abril 24, 2008 by LA
A conversa passava-se na mesa do lado, no café. O homem, em estado de evidente excitação, descrevia à mulher o enredo de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. No final, incitando ao apoiozinho, pergunta-lhe: “tem power ou não tem?”
Segue-se um breve silêncio incomodado, interrompido pelo homem: “eh pá, outro livro com uma granda power é O Alquimista, do Paulo Coelho”.
Esta conversa é mais esclarecedora do que parece.
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Abril 24, 2008 by LA

Mais uma mortificação francesa: uma exposição fotográfica mostra a vida agradável dos parisienses durante a ocupação nazi (iam ver o Conde de Monte-Cristo ao cinema, por exemplo, como na fotografia). É um daqueles temas que toda a gente conhece mas é suposto calar. Toda a gente sabe das denúncias de judeus e da geral colaboração. Muita gente sabe, até, que Sartre, famoso compagnon comunista, escreveu em jornais colaboracionistas e apresentou duas peças (Les Mouches e Huis Clos) durante a ocupação.
Mas é uma estranha mortificação. Porque a verdade é que, por onde os nazis passaram, não deixaram apenas um rasto de morte, deixaram também um rasto de colaboração. Isto é verdade em toda a Europa central e de leste. Mais interessante ainda, é verdade em Inglaterra, onde ocuparam a ilha de Jersey. Apesar de a partir de Junho de 1940 a Inglaterra ser o único país em guerra com a Alemanha, não foi isso que impediu muitos islanders de colaborar com eles. É por serem tão poucos que há heróis.
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