Archive for Agosto, 2008

Não seja por isso…

Agosto 29, 2008

A bossa já não vai para nova

Agosto 29, 2008

Imoderado e belicista

Agosto 28, 2008

Está muito certo o Miguel Morgado. De resto, haveria bastante a dizer sobre as liberdade civis sob FDR. Só para acrescentar uns exemplos: foi durante a sua primeira presidência que se fundou o FBI, com a direcção entregue ao infame J. Edgar Hoover, famoso pelas suas perseguições a presumíveis comunistas e fascistas. Mas não era disto que queria falar. Queria apenas relembrar as dificuldades de Roosevelt para lançar os EUA na II Guerra Mundial. Roosevelt andou dois anos a tentar convencer o Congresso e a opinião pública americana de que o país teria de entrar na guerra. Lembre-se que a generalidade da elite americana (incluindo os comunistas, depois do Pacto Germano-Soviético) era pacifista, pelo menos no sentido de não entrar naquela guerra. Aliás, lembre-se que a generalidade da elite europeia o era e que, na Europa, apenas Churchill desempenhou um papel idêntico ao de FDR. Hoje, a II Guerra Mundial é apresentada como a guerra consensual, aquela que tinha de ser combatida. É interessante como à época era exactamente o contrário: de Chamberlain a Estaline e ao pai Kennedy, passando por toda a “gente civilizada” (como, salvo erro, disse AJP Taylor), não havia quem não quisesse negociar com Hitler.

Quando eu era novo

Agosto 28, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 24/7/2008)

Quando eu era novo também havia a crise. Aliás, toda a minha adolescência foi passada em crise. O que faz duas: a crise própria da idade e a crise económica, social e política do país de 1975 a 1986. De tal modo, que não fui preparado para em adulto aproveitar as oportunidades dos anos de ouro de 1986 a 1992. Os meus anos de crise fazem-me rir da crise actual. Veja-se os concertos pop.

Quando eu era novo, havia apenas um “festival de Verão”: a Festa do Avante. Muitas vezes rumei ao “Jamor” ou à “Ajuda”, onde vi os The Band ou os Dexy’s Midnight Runners. Era um óbvio sinal de subdesenvolvimento que a única instituição capaz de promover eficientemente concertos de música capitalista decadente fosse o PCP. Quando eu era novo, qualquer banda pop de vigésima categoria era convertida numa das melhores do mundo, simplesmente porque não havia mais nenhuma a vir a Portugal – assim de repente, lembro-me dos The Tubes ou dos Dr. Feelgood… Se exceptuarmos os The Police, nunca por cá passaram bandas verdadeiramente importantes da época, como Patti Smith, os The Smiths, os New Order ou os Sex Pistols.

Veja-se agora as dezenas de “festivais de Verão” deste Verão. No espaço de pouco mais de uma semana, por cá passaram históricos que em adolescente ansiei ver quase todos os dias: Bob Dylan, Neil Young, Lou Reed e Leonard Cohen. Em boa parte por causa dos dois primeiros, vi talvez umas quatro vezes The Last Waltz, de Martin Scorsese. Aos históricos, juntem-se as bandas menos conhecidas, mas que fazem a música interessante da actualidade: The National, Vampire Weekend, Hercules & Love Affair, Editors, Au Revoir Simone… O paroxismo desta avalanche deu-se quando Lou Reed e Leonard Cohen tocaram em Lisboa na mesma noite de sábado passado. Peço desculpa, mas isto é um sinal de que o país sempre se desenvolveu nos últimos anos. Estaremos em crise, mas vocês não sabem o que é uma verdadeira crise.

O moralista que existe em todo o colunista deveria agora lançar-se numa diatribe contra estes hábitos de “consumo conspícuo”, zurzindo uma população que desperdiça dinheiro num país perpetuamente miserável como é o nosso. Poupo-me o esforço: os concertos foram bons, o tempo está óptimo. É gozar as férias, porque dá a impressão de que o Inverno e o ano que vem vão ser bastante duros.

É o que há

Agosto 28, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 17/7/2008)

Os méritos das obras públicas são evidentemente discutíveis. Os recursos são escassos e convém saber onde se utilizam. Toda a gente conhece uma ou outra obra pública que lhe parece desnecessária, uma ou outra obra pública que gostaria de ver mais bem feita, um ou outro “elefante branco”.

A nova presidente do PSD lembrou-se de criticar as obras públicas, por “falta de estudos” e por “falta de dinheiro”. Talvez faltem estudos, mas não são os estudos quem vai decidir o que se faz e quando se faz. A invocação dos “estudos” é uma velha mania da tecnocracia, a qual é em si própria uma política. Toda a decisão sobre obras públicas é política. Já a invocação da falta de “dinheiro” é mesmo política. Mas não parece muito certa. Se há característica do dinheiro é que falta sempre. Ou seja, nunca há dinheiro para tudo e a arte da política está, em grande parte, no uso ajuizado do dinheiro em fins alternativos.

Enfim, nada disto soa a muito “credível”. Sobretudo, não parece “credível” a mudança de atitude. Este PSD sempre foi o PSD das obras públicas: quem não se lembra das auto-estradas e do CCB de Cavaco e das polémicas furiosas da época? Acresce que, nas mesmas circunstâncias, o PSD faria exactamente o mesmo. Que governo do PSD, a um ano das eleições, sem política monetária autónoma e em plena crise económica, não usaria as obras públicas e a despesa do Estado para “animar” a economia e o emprego? Para além do óbvio fito eleitoral, o PSD está cheio de pessoas cuja “social-democracia” ou “keynesianismo” consideram ser este o curso adequado. E, face às recentes propostas da nova Presidente do PSD de apoiar directamente as “famílias em dificuldades”, cumpre perguntar se não será mais interessante investir do que praticar um assistencialismo despropositado.

Não vale a pena perder muito tempo com isto: é claro que o PSD, por princípio e pelas circunstâncias, faria exactamente a mesma coisa que o PS. Esta busca um pouco forçada para criar distinção com o PS não é nada “credível”. E principalmente não convence quanto a uma alternativa real no futuro. Este PS é o depositário do cavaquismo, que é a matriz deste PSD. A política deste tandem, aplicada ao longo dos últimos seis anos, não resultou e não vai resultar. Mas vamos ter que ficar com um deles. Ou com os dois. É o que há.

Inflação

Agosto 28, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 10/7/2008)

O economista Milton Friedman defendeu muitas ideias erradas e muitas certas ao longo da sua vida. Uma das mais certas foi a de que a inflação é sempre um fenómeno monetário. Não vale a pena dizer que a “causa” da corrente inflação europeia é a subida do preço do petróleo e dos alimentos. Por si mesma, ela apenas sinaliza a escassez relativa (natural ou provocada, pouco importa…) dos géneros em causa. Para que a subida localizada se transforme em generalizada é necessária uma política monetária acomodatícia.

O Banco Central Europeu subiu a taxa de juro central em 0.25% na passada quinta-feira e logo foi muito louvado pelo seu combate à inflação. É estranho que assim seja. O BCE vem, desde há um ano, assumindo uma postura de aparente combate feroz à inflação. O que não tem impedido a inflação de estar cada vez pior. Mas a verdade é que a política do BCE é mais complexa do que parece. Pouca gente reparou, mas na véspera da subida da taxa de juro, o BCE fez mais uma das suas maciças injecções de liquidez no sistema financeiro. Isto é, ao mesmo tempo que, com grande pompa, anunciava uma postura firme contra a inflação, mais subrepticiamente alimentou a inflação, ao criar moeda nova. Este tem sido o seu padrão no último ano. A explicação está no facto de o BCE estar a combater dois monstros de sinal contrário: a crise financeira, que exige relaxamento monetário, e a inflação, que exige aperto.

Mas há algo de perturbador neste exercício. As injecções de liquidez são um subsídio generalizado às instituições financeiras. Quer isto dizer que não distinguem as merecedoras de salvação das que não o merecem, pela sua imprudência. Uma solução melhor talvez fosse deixar desaparecer as imprudentes, para premiar as prudentes e consolidar o sector. Há quem diga que isto não é possível, porque as actuais instituições financeiras são “demasiado grandes para poderem abrir falência”. Não sei se já alguém reparou que isto é a negação do princípio básico do nosso sistema económico: sem falências não podemos saber o que foi mal feito. Para além de que esta política consiste em dar balõezinhos de ar às instituições financeiras (as injecções) e castigar famílias e investidores (os juros). Para eles, a safa, para nós, o castigo.

Guerras

Agosto 28, 2008

Vejo muita gente preocupada com a possibilidade de uma nova “guerra fria”. Talvez seja melhor do que uma guerra quente. Ou então não: bem feitas as contas, talvez tenha morrido mais gente na Guerra Fria (45-91) do que na guerra quente anterior (39-45). Mas a guerra quente de 39-45 fez-se para resolver problemas criados pela solução da anterior guerra quente de 14-18, e a Guerra Fria fez-se para resolver problemas criados pela solução da guerra quente de 39-45. Será que a nova guerra (fria? quente?) se fará para resolver problemas criados pela solução da Guerra Fria? É belo o progresso.

Hmmm… Má ideia…

Agosto 14, 2008

“I have staked my country’s fate on the West’s rhetoric about democracy and liberty”

Mikheil Saakashvili, Presidente da Geórgia

É o realismo

Agosto 12, 2008

Depois do “irrealismo” das aventuras afegã e iraquiana, a moda passou a ser o “realismo” na política internacional. Ora aí está ele: a Rússia, muito realisticamente, mantém a sua esfera de influência no Cáucaso; a “Europa”, muito realisticamente, sabe que tem de deixar a Rússia recuperar essa esfera de influência, sobretudo depois da sua (da Rússia) derrota no Kosovo; os EUA, muito realisticamente, olham para o lado e, depois de andarem anos a apaparicar a Geórgia, abandonam-na sob um manto de declarações ineficazes. E, muito realisticamente, perguntamo-nos nós todos: será que a Geórgia valia uma guerra entre os EUA e a Rússia? Não era o “realismo” que queriam? Pois aí o têm. Espero que apreciem a beleza do espectáculo.