Archive for Fevereiro, 2010

Do Che ao pontapé

Fevereiro 26, 2010

(Publicado no jornal Metro, 25/2/2010)

Como um acidente de automóvel, por muito que queiramos evitar, não conseguimos deixar de olhar para as escutas que vão sendo publicadas por aí. Acabam por ser pouco surpreendentes, limitando-se a pôr na primeira pessoa aquilo que o cidadão comum sempre suspeitou que os políticos faziam: espertices mais ou menos saloias, manigâncias e abusos (de poder e de linguagem). Mesmo que uma pessoa queira restaurar a “dignidade da política”, torna-se difícil perante o espectáculo de esquemas, entremeados de (e cito) “pás”, “gajos” ou “m…s”.

No meio disto tudo, duas coisas são interessantes. Primeiro, os projectos políticos dos envolvidos, que são… nenhuns. Todos eles são pessoas de esquerda. Rui Pedro Soares, por exemplo, o caso mais citado, passou (na juventude) das t-shirts de Che, mais o apoio à liberalização do aborto e da droga (tudo coisas muito modernas e bastante giras) e a moção à liderança da JS “Nós vamos pela esquerda”, para os voos de jacto privado entre Lisboa, Madrid e Milão, a fim de negociar “coisas” com Cebrián, Figo e Mourinho. Segundo o amigo Paulo Penedos, “o gajo conhece toda a gente”. E ideias para o país? Ignora-se.

A outra coisa interessante é o dinheiro. Parece que o único método destes ases da estratégia é despejar dinheiro. Mete-se um jogador de futebol no bolso por uns milhões ou resolve-se o “problema da TVI” com outro tanto. Numa das escutas publicadas, Soares queixa-se a Vara da dificuldade em resolver o “problema” da Cofina. Vara não tem dificuldade em responder-lhe: “Isso compra-se”. Noutra escuta, Paulo Penedos fala de certos montantes, provocando a agora famosa reacção de Marcos Perestrello (certamente movido por preocupações sociais): “essa m… em subsídios de desemprego…” Não se trata apenas de estratagemas. Trata-se da facilidade em congeminá-los graças à bolha de dinheiro em que os envolvidos nas escutas vivem. São aprendizes de feiticeiro a nadar numa quantidade obscena de recursos.

 Assim também eu, mas parece que agora é assim.

Anúncios

The Japanese Economy

Fevereiro 25, 2010

Nos cornos da notícia

Fevereiro 25, 2010

Há grande alegria nas hostes governamentais e pró-governamentais sobre o facto de existirem escutas que “provam” que Manuela Ferreira Leite sabia do negócio PT/TVI. Talvez não tenham pensado que assim (sabendo toda a gente) se torna cada vez mais improvável que o PM não soubesse, ou que fosse o último a saber.

You’re very brown

Fevereiro 24, 2010

Vou também passar a andar por ali, agora em língua bárbara.

Baixo fundo

Fevereiro 19, 2010

(Publicado no jornal Metro, 18/2/2010)

Não se sabe bem como começou, mas de há uns anos a esta parte que a política deixou de ser uma actividade de confronto claro de ideias e pessoas para se transformar num jogo sórdido de informação de bas-fond estrategicamente plantada em jornais. Talvez o primeiro exemplo da nossa democracia tenha sido o da campanha do defunto jornal O Diário contra o então primeiro-ministro Sá Carneiro em 1979. Mas o início da época de ouro remete-nos para O Independente dos finais do cavaquismo. De então para cá é um crescendo de casos “de regime” (“Moderna”, “Casa Pia”, “Freeport”, “Face Oculta”, etc.), que vão deixando o incauto cidadão entre o perplexo e o indiferente. É a “maravilhosa triálise” (para citar o saudoso Serafim Saudade) entre jornalista, juiz e informador (ele próprio ora político, ora juiz). Como cada caso envolve sempre uma dimensão criminal, agora trata-se de atacar o outro por ser criminoso e não simplesmente por ter ideias erradas.

O resultado é esta espécie de guerra civil verbal em que nos vamos metendo. Parece que voltámos ao PREC (a última vez que esteve para haver uma guerra civil): o PSD tornou-se num partido anti-fascista (mas de direita), o PS convoca manifestações para a fonte luminosa, em defesa do querido líder. É a História a repetir-se como farsa: não estão hoje em causa modelos políticos diferentes; na verdade, não se sabe muito bem o que está em causa. Uma pessoa lê aquelas páginas de redacção pedestre do jornal Sol e percebe que não há nada de novo: é o remake da compra da Lusomundo pela PT no tempo de Guterres, estrutura que o governo seguinte aliás usou, e os de Sócrates usaram de outra forma. Tudo coisas com grande pedigree na nossa democracia (tanto que os episódios não cabem nesta pequena coluna). Nova é a violência sem sentido do debate, o que aliás este governo facilitou com o seu tom acossado e histérico. A agressividade parece ter chegado a um nível em que já não há chão comum entre cada um dos lados. E nada dura muito assim.

Assim não vale…

Fevereiro 18, 2010

Quem faz o seu joguinho de lama não pode vir agora queixar-se dos golpes baixos do adversário. Não gostam? Azar. Eu acho tudo isto o máximo. Juro que nunca sonhei ver o Público dedicar uma setinha para cima (esse espaço mítico normalmente reservado aos Obamas, Mandelas e Gores deste mundo) ao Carlos Santos.

Might as well play the lottery

Fevereiro 15, 2010

Most Germans want Greece thrown out of euro.

“Telefona-me aí a esse malandro”

Fevereiro 12, 2010

(Publicado no jornal Metro, 11/2/2010)

O caso do complot para controlar a comunicação social tem gerado grande comoção. É legítimo. Mas talvez valha a pena sobre ele ter um outro olhar. Episódios equivalentes abundam na História da nossa democracia. Há uns anos, um antigo militante do PS, Rui Mateus, publicou um livro cheio de relatos edificantes sobre uma bem consistente estratégia de Mário Soares para criar um grupo de comunicação. A jornalista Estrela Serrano, também há uns anos, publicou uma tese de doutoramento sobre a relação do Presidente Soares com os jornais. Mais uma vez, por lá se multiplicam as histórias de “pressões”, cujo resumo cabe na frase do Presidente, pelos vistos usada abundantemente: “telefona-me aí a esse malandro”. Não consta que tenha dado origem a grande reacção. Foi até encarado com benevolência respeitosa. O período do cavaquismo (i.e. do Cavaco primeiro-ministro) também está recheado de histórias e rumores sobre infelizes jornalistas ameaçados na sua liberdade opinativa. A PT sempre foi usada para fins equivalentes: para que serve a famosa Golden Share que o Estado lá tem? Isto para não falar dos telejornais da televisão pública. E dos “homens de meios” sempre dispostos a ajudar um qualquer “amigo” político comprando ou criando jornais.

Em suma, “telefonar a malandros” é o desporto favorito do político português. Mais grave é o que resulta politicamente do caso do complot. A alternativa ao PS, o PSD, vem cavalgando uma espécie de “anti-fascismo” de direita, que apropriadamente culmina hoje numa manifestação. Preocupante é o vazio que isto revela. Não tendo a estratégia resultado nas urnas, continuou depois. Mas o que muita gente se pergunta é o que tem o PSD a oferecer de diferente para governar um país que chegou a um grau muito elevado de disfuncionalidade política, económica e social. Infelizmente, não se vê muito. O caso do complot revela a irrelevância do PS. Mas também o da sua presumível alternativa. Bem fizeram a cama em que nos vão meter.

Live and let die

Fevereiro 11, 2010

Já não sei bem quando começou, mas tinha de acabar mais ou menos assim. E agora? Agora, olha…

Know your limits

Fevereiro 11, 2010

Greece may be an outlier, in statistical terms, but no one should be fooled into thinking that the agonizing struggles it faces are not coming our way.