Archive for Maio, 2009

Bons alunos europeus

Maio 29, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 28/5/2009)

Começou a campanha para o Parlamento Europeu e imediatamente se seguiram os lamentos: ninguém liga, vem aí uma abstenção “histórica”, ninguém discute a “Europa”, ninguém sabe para o que vai votar. O povo português, sempre tão louvado na sua “sabedoria” quando vota para o parlamento nacional, transforma-se num amontoado de ignorantes. Para onde vai a sua sabedoria de cinco em cinco anos? Talvez, na verdade, nunca o tenha abandonado. Não será por acaso que a “qualidade do debate” é, em Portugal, idêntica à de qualquer outro país europeu, onde o povo também é “sábio”. Eis algo em que somos, efectivamente, “bons alunos europeus”.

Não vale a pena dizer que é porque ninguém conhece a “arquitectura institucional” europeia. Na verdade, também ninguém sabe muito bem qual a “arquitectura institucional” portuguesa. Como se dividem os poderes entre Presidente, Governo e parlamento? Sabe-se é que “eles mandam”. Os portugueses vão eleger 22 deputados, num total de 735, juntamente com mais cerca de 340 milhões de eleitores. Qual o peso do nosso voto para a constituição do parlamento? Os deputados vão organizar-se em representações político-ideológicas e não nacionais. Os partidos europeus não significam nada para os eleitorados nacionais e os parlamentares europeus não se apresentam como representantes do “interesse nacional”. Ou seja, não existem as condições de cálculo eleitoral que se faz a nível nacional: voto para formar, influenciar ou punir o governo? Qual governo? Voto útil para formar uma maioria? Qual maioria? Voto para favorecer a esquerda? Mas como vota o eleitorado alemão, que é dez vezes maior? Mais o da França, da Itália e da Inglaterra? Voto para defender os “interesses” do país? Mas quais interesses? E, já agora, que país? Depois, toda a gente percebe que certas coisas verdadeiramente importantes dependem ainda das autoridades nacionais: é o caso dos impostos e das despesas públicas.

O problema não é o eleitorado nem sequer o parlamento. O problema é aquilo que a UE é e não é. Sobretudo a tensão permanente entre querer tranformá-la num estado nacional federal (os míticos EUE, Estados Unidos da Europa) ou mantê-la enquanto estrutura internacional, com representantes nacionais. Enquanto não se resolver esta oscilação (se alguma vez resolver) as eleições para o Parlamento Europeu continuarão a ser a mesma sensaboria. A propósito: será que Rangel vai ter mais votos do que Vital? E poderá assim o PSD ganhar balanço para vencer as legislativas?

Can he?

Maio 26, 2009

Não foi preciso passar muito tempo dos “cem dias” para se perceber uma coisa simples: ou a presidência Obama continua a mesma política externa psicanalítica (“o que é preciso é falar com eles”, “eles precisam é de um ombro onde se encostar”, “deixem-nos manifestar a sua agressividade”) e deixou de ter qualquer capacidade especial para determinar o estado da segurança no mundo, ou então adopta a postura do Bush do primeiro mandato, talvez ainda mais do que o Bush do primeiro mandato, para restabelecer a credibilidade.

Ouvi ultimamente muitos louvores à nova postura americana, que lhe dava grande margem de manobra. Mas a verdade é que fez exactamente o contrário. A administração não tem neste momento qualquer capacidade de reacção: muito simplesmente, ninguém acredita que Obama faça o que quer que seja contra o Irão ou a Coreia do Norte. Já no tempo de Bush não era assim: ninguém tinha a certeza se ele não ousaria realmente bombardear o Irão. Mesmo que depois não o fizesse, criava a dúvida: afinal não o fez no Iraque? Obama não tem este instrumento. E ou desiste dele ou o recupera rapidamente. Verdade se diga que já o fez no que toca à política de detenção dos prisioneiros de guerra. Mas a falta de clareza com que o fez mostra a hesitação. Mesmo assim, ninguém se surpreenda se vir por aí aparecer um dia um Obama todo belicista.

22 de Maio sempre

Maio 23, 2009

O primeiro-ministro foi recebido por jovens letrados na escola António Arroio aos gritos de “Fascista!” Agora é que era caso para vir Manuel Alegre explicar que eles não sabem o que é o fascismo. Também empunhavam cartazes em que se viam coisas como “Somos futuristas” e “Marinetti = Deus”. Não devem saber que Marinetti foi efectivamente fascista (do original Partido Fascista Italiano, de Mussolini) nem que o futurismo foi uma espécie de vanguarda artística do fascismo. Presumo que isto reflicta o estado da educação em Portugal.

Guantánamo com outro nome

Maio 22, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 21/5/2009)

 Parece que o Presidente Barack Obama pretende manter detidos por tempo indeterminado os capturados nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Parece que pretende ainda manter em funcionamento as comissões especiais instaladas pela administração Bush para os julgar. Como parece também que mantém a promessa de encerrar a famosa prisão de Guantánamo, isto só pode significar uma coisa: Guantánamo vai continuar a existir, embora noutro local (ou noutros locais) e, portanto, com outro nome. E toda a conversa que se tem ouvido sobre aumento de direitos dos detidos é distracção. Nada de especial muda e, se muda, é para pior: os prisioneiros trocarão o magnífico clima cubano por outras regiões mais desagradáveis.

Uma setinha de Obama para baixo no Público não compensa a ausência dos inúmeros textos laudatórios (que teriam de ser críticos, neste caso) a que nos habituámos. Regressámos assim ao ponto em que estávamos no tempo da administração anterior, embora na altura tudo fosse resumido à perversidade de Bush, Cheney, Rumsfeld, Rice e do amontoado trágico de “neoconservadores”: o que fazer com indivíduos que não são prisioneiros de guerra regulares nem prisioneiros comuns. O problema não é o de uma mera mania pelas definições. Tem que ver com o tipo de garantias que podem ou não ser-lhes atribuídos durante a detenção e o julgamento. Tanto a III Convenção de Genebra como o processo judicial americano obrigariam a revelar informações que, no fundo, tornariam praticamente inútil o esforço de guerra dos EUA. A oportunidade foi dada àqueles (incluindo o actual presidente) que criticaram Guantánamo por ser o “gulag dos tempos modernos” (nem mais nem menos) e explicaram que era fácil substituí-lo por outros procedimentos jurídicos. Parece que chegaram à mesma conclusão de Bush. Estão certamente de parabéns. São agora tão maus ou estúpidos quanto ele.

Para além da específica questão jurídica, há aqui um problema um pouco mais genérico: o presidente dos EUA não é o director de uma ONG ou do Fórum de Porto Alegre. Ele é o líder do país mais poderoso do mundo. E, se quer manter esse estatuto, tem de se envolver com as ambiguidades políticas próprias do dito. A questão está sempre nos limites dessas ambiguidades e até onde se pode ir sem trair os princípios gerais de uma nação democrática e liberal. Como se viu, não há muitas soluções, seja o presidente um presumível idiota, como Bush, ou um presumível génio, como Obama.

Deve ser isto o fim dos offshores

Maio 20, 2009

Spain reins in crusading judges.

Change we can believe in

Maio 20, 2009

Iran fires missile capable of hitting Israel.

Note-se o timing: Netanyahu acabou de regressar de Washington.

Coppi & Bartali

Maio 19, 2009

As duas Itálias.

31/5

Maio 19, 2009

O fim da crise?

Maio 15, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 14/5/2009)

Começam a ouvir-se vozes esperançosas sobre o fim da crise económica. Há quem, cautelosamente, aponte para uma hipotética “luz ao fundo do túnel”. Mas também há quem não hesite em ver a crise ultrapassada: estaríamos agora apenas a lidar com a cauda do furacão; tratar-se-ia só de esperar mais uns meses.

Compreende-se a ânsia em ver a crise passada (quem não o quer?), mas é sempre desaconselhável confundir desejos com realidades. Em que se baseiam os prognósticos favoráveis? Sobretudo em três indicadores: o regresso dos bancos americanos aos resultados positivos, algumas semanas seguidas de boas sessões nas bolsas e, finalmente, a aparente estabilização da queda do preço das casas nos EUA. Mas importa ver como estes resultados foram possíveis. Neste momento, o sistema financeiro é o sector mais subsidiado da economia. Os subsídios vão desde o ostensivo ao subtil. Dentro do ostensivo temos as injecções de fundos públicos, as garantias do Estado e o abaixamento das taxas de juro de referência (0% nos EUA, 1% na UE). Mais subtil é a assunção não declarada pelos bancos centrais da função de “banco tóxico” ou “banco mau”: de facto, tanto o Fed quanto o BCE estão já a aceitar títulos hipotecários (onde se situam os activos ditos “tóxicos”) em troca de injecções de liquidez, algo que está muito longe da prudência e das suas funções normais. Ainda mais subtil foi a alteração das regras contabilísticas dos bancos americanos, que deixaram de estar sujeitos ao agora infame princípio “mark-to-market” (valor corrente no mercado) para poderem passar a registar activos de acordo com um preço hipotético, supostamente baseado no seu valor de médio ou longo prazo: também assim se espera que os activos tóxicos desapareçam apenas pelo efeito mágico de se lhes atribuir um valor fantasioso.

Mas o sistema financeiro não pode continuar permanentemente sob este regime de cuidados intensivos. A esperança parece ser que, com o tempo, os ditos “activos tóxicos” sejam varridos para debaixo do tapete ou comecem a ter retorno. Mas as dificuldades de pagamento e a ameaça de insolvência regressarão logo que os juros subam e as injecções parem. Só há duas soluções para tudo isto: ou uma inflação substancial que limpe as dívidas, ou a insolvência de quem é insolvente. Cada uma tem os seus custos, mas ainda não os sentimos. Isto é, uma parte grande da tempestade deverá estar ainda por passar. Ou me engano muito, ou os anúncios da morte da crise podem ter sido manifestamente exagerados.

Take heed

Maio 8, 2009