Archive for Julho, 2008

A bushização de Obama

Julho 7, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 3/7/2008)

Barack Obama entrou em processo de bushização. Há umas semanas, afirmou recusar a partição de Jerusalém, uma reivindicação israelita que nem o próprio Presidente Bush defende. Depois, fez ruídos suspeitos sobre a permanência no Iraque, indicando que estava pronto a abandonar o seu programa de retirada. Há dias, deu em louvar as medidas de “eavesdropping” em tempos pedidas (e obtidas) pelo Presidente Bush: a precedência do executivo sobre os tribunais no uso das escutas telefónicas a suspeitos de terrorismo. Entretanto, permitiu-se abdicar do financiamento eleitoral público e até apareceu a defender o uso do etanol quando se sabe que a sua campanha é financiada por empresas com interesses no sector. Finalmente, horror dos horrores, surgiu a defender a pena de morte – não apenas a pena de morte, mas a pena de morte para autores de crimes que não são homicídio, no caso a violação de crianças. Não admira que, nesse verdadeiro jornal de parede da correcção política portuguesa que são as setinhas da última página do Público, a sua setinha tenha aparecido uma vez para o lado, e não para cima como é hábito.

De facto, já estava a parecer esquisito que um candidato à presidência americana fosse o verdadeiro namoradinho do Bloco de Esquerda. Mas agora, conseguida a nomeação graças à esquerda do Partido Democrático, trata-se de conquistar um eleitorado autenticamente nacional. A “esperança”, a “mudança” e as longas dissertações mais ou menos vazias, em estilo visionário, estavam muito bem para a clientela restrita do partido. Agora é preciso roubar votos ao adversário do outro lado do espectro político. Vai ser a história da campanha de Obama: o equilíbrio instável entre meter no barco o eleitorado centrista, mais preocupado com a segurança dos EUA e problemas políticos concretos, e manter acesa a chama da esquerda da utopia.

Só que isto levanta a questão: quem é o verdadeiro Barack Obama? O sinistro Mr. Obama que só aparece à noite? Ou o encantador Dr. Barack da luz do dia? O Bush das últimas semanas? Ou o Manuel Alegre dos meses anteriores? Se me é permitido, acho que estará mais próximo do primeiro, mesmo se muitíssimo diferente. Caso venha a ser eleito, se calhar ainda vamos ter saudades do original.

Onde estaria a diferença?

Julho 7, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 26/6/2008)

O PSD passou o fim-de-semana entretido com a “credibilidade” reencontrada. Talvez por isso, a sua nova presidente encerrou o congresso com uma intervenção muito pouco credível. Mas nessa actividade de feitiçaria a que se costuma dar o nome de política praticamente tudo é possível. Julgo mesmo que, em política, uma das funções da “credibilidade” será permitir-nos não sermos credíveis.

Senão vejamos. A nova presidente do partido criticou o governo por se ter transformado apenas numa “máquina eficaz de cobrança de impostos”. Tem a sua graça, vindo da inventora dessa mesma máquina. Aliás, é interessante ver a presidente do PSD criticar a política orçamental (e consequentemente económica) agora seguida pelo PS, tendo sido ela quem a inaugurou nos idos de 2002. Graças à comédia do ano de 2005, aquela em que nos divertimos a tentar saber se o défice chegaria mesmo a 6% do PIB, o PS afirmou o fracasso da política anterior para melhor a continuar a seguir. Agora fora de brincadeiras: se governasse, o PSD seguiria uma política orçamental diferente da actualmente seguida pelo PS? Ainda por cima, ao mesmo tempo que critica a sinistra “máquina eficaz”, a presidente do PSD considera uma “irresponsabilidade” a descida do IVA de há uns meses atrás. Ou seja, o governo é criticado por ser a tal “máquina eficaz” e por não ser. O que está em questão na actual política orçamental do governo não é apenas a deste governo mas também a do infausto gabinete em que a presidente do PSD foi ministra das Finanças. Como é evidente, então como agora, o défice precisava de uma solução. O que muita gente sempre perguntou foi se este era o caminho.

As más notícias económicas nacionais e internacionais abrem uma óbvia janela de oportunidade para a vitória do PSD “credível” (que aliás não reapareceu por acaso). Não por seu grande mérito, mas porque, com uma situação económica em permanente deterioração, os eleitores poderão tender a dar o benefício da dúvida ao próximo. Claro que também poderão não dar. Até porque caberá sempre perguntar: o PSD no governo, para quê? Afinal, o actual governo é bastante “credível”. Mesmo que o PSD ganhe as eleições de 2009, uma pergunta precisa de resposta: onde estaria a diferença? Não parece fácil responder.

Tudo vale a pena?

Julho 7, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 19/6/2008)

Se há coisa que irrita é o histerismo europeu. O pacato cidadão passa o tempo a ouvir que a “Europa tem de ir para a frente”, que a “Europa não pode parar” ou em alternativa que a “Europa está em crise”, que “o projecto europeu está ameaçado”… Então quando acontece um referendo negativo a qualquer proposta que esteja na mesa, como aconteceu agora na Irlanda a propósito do Tratado de Lisboa, parece que as meninas viram um rato. Por estes dias, deram mesmo em ameaçar a Irlanda de exclusão da União Europeia.

Como é evidente, o Tratado de Lisboa não é o único caminho para a Europa. Não parece sequer um texto muito útil e, como se vem vendo, desde a sua anterior encarnação enquanto Constituição Europeia que tem mesmo dado mais trabalho do que se nunca tivesse existido. É claro que por detrás dos dois tratados se esconde a ideia da criação da Europa enquanto unidade geopolítica coesa e autónoma da tutela americana. Mas eis aí uma proposta bastante discutível. Quais são os seus efectivos méritos? O actual entendimento com a América dá larga margem de manobra aos europeus. A América não se pode dar ao luxo de perder a Europa como aliada, por muito que esta não tenha autonomia de defesa. A Europa é só a maior área geográfica e populacional democrática e também a maior das áreas prósperas do mundo. No dia em que a América abdicasse de tutelar a Europa, ela com facilidade ficaria refém de ameaças russas. E uma área de influência russa do Atlântico ao Pacífico seria um pesadelo americano. E seria também um pesadelo para a Europa rica e democrática. Como espaço geopolítico informe que é, o que prefere a Europa, a tutela americana ou a russa?

Há quem, a estas duas alternativas, prefira a plena autonomia europeia. Mas é aqui que o passado europeu traz algumas lições. Sempre que alguém quis unificar o continente, o resultado foi a violência. A Europa é um cemitério de tentativas de unificação, do Papado a Hitler, passando pelo Sacro Império Romano, os Habsburgos ou Napoleão. Aliás, se viveu em paz nos últimos sessenta anos, deve-o a Europa em grande medida à tutela americana. É preciso delegar em alguém exterior ao continente o poder de federar para a federação ser aceitável. Claro que desta vez poderia ser diferente. Mas valerá a pena arriscar?

Pensar com os pés

Julho 7, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 12/6/2008)

É certo e sabido: de dois em dois anos, quando há campeonato Europeu ou Mundial de futebol, uma série de almas agita-se, preocupada com o povo alienado pelo chuto na bola. E lá nos explicam que é um sinal do nosso atraso e que vivemos uma grande crise e que a bola só serve para não resolvermos a crise e que é o pão e o circo, como no tempo dos romanos, e que nem na altura de Salazar se ligava tanto ao futebol e que o governo agradece…

Vamos lá a ver: o Europeu ou o Mundial acontecem apenas de dois em dois anos e duram um mês. O atraso português e a actual crise económica começaram antes do Euro 2008 – o atraso português começou mesmo antes de alguma vez se realizar qualquer campeonato europeu. Não será atribuir demasiada responsabilidade ao futebol? Basta aliás ver o que se passa nos outros países: de Stetin, no Báltico, a Huelva, no Atlântico, anda tudo doido com a bola. Atrevo-me até a sugerir que sinal de atraso talvez seja tanta gente a queixar-se da atenção dedicada ao futebol – esse não é, efectivamente, um género intelectual tão frequente nos países desenvolvidos, que vivem este tipo de eventos descomplexadamente. O argumento implícito dos queixosos parece ser o de que, no espaço de tempo entre os Europeus e os Mundiais de futebol, andamos por aí a resolver os problemas do país. A ser verdade, eis o que diz muito mal dos esforço inter-campeonatos. Afinal, houve dois anos desde o último Mundial (e quatro desde o Euro) para resolver o atraso económico português (ou a crise das finanças públicas), sem qualquer sucesso. Diga-se em abono da verdade que quando se olha para certas propostas visando desenvolver o país ou resolver a crise, se fica convicto do carácter benigno do futebol.

Claro que ninguém é obrigado a gostar de futebol. Deve até ser bastante irritante não gostar de futebol neste ambiente quase unanimista em que, do taxista ao Presidente da República, toda a gente está com os “nossos heróis”. Mas o que se dispensava era a lição de moral. É um mau género político, literário e intelectual. O país não é atrasado por causa do futebol. A crise não foi causada pelo futebol. Não vale a pena pensar com os pés.

Opções radicais

Julho 7, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 5/6/2008)

As eleições legislativas de 2009 vão ser interessantes. Tudo graças à diversidade da escolha disponível, assegurada pela vitória de Manuela Ferreira Leite para a presidência do PSD. Talvez valha a pena fazer aqui um pouco de história antiga, regressando ao passado distante de 2005. Já ninguém se lembra muito bem, mas Sócrates apresentou-se às eleições desse ano como o candidato da “confiança” contra a “obsessão do défice”. Para Sócrates, bastava um bocadinho de “confiança”, retirando-nos do espírito lúgubre da época, para voltar o crescimento económico e o emprego. Por esta altura, já teriam sido criados 150.000 novos postos de trabalho e a economia deveria estar a crescer próximo dos 3%. No entanto, passados uns meses de legislatura, a obsessão do défice tinha voltado e a política seguida era a mesma que fora inaugurada em 2002, com (imagine-se…) Manuela Ferreira Leite como ministra das Finanças.

Ou seja, tenha sido o governo do PSD-CDS ou do PS, a verdade é que andamos a seguir a mesma política económica e financeira há seis anos, com evidentes resultados. Os recentes números do comportamento da economia são um belo veredicto: o crescimento continua miserável, o emprego teima em manter-se baixo, a convergência com a EU persiste como mera ilusão. Quando os eleitores forem votar para o ano, caso queiram punir o actual governo, terão como principal escolha a pessoa que inaugurou esta mesma exacta política. A opção radical será, portanto, entre quem a seguiu e pelo menos teve a coragem de a assumir com clareza, e quem não teve essa coragem, abandonando o barco a meio caminho. Não surpreenderá, assim, que escolham a continuação do mesmo.

Prepara-se aí, portanto, uma luta interessante, já que o PSD nada terá a propor como alternativa àquilo que o PS vem fazendo. No dia em que o PSD começar os seus ataques à governação do PS, este não encontrará qualquer dificuldade em perguntar o que faria o PSD de diferente, nem terá dificuldade em tirar da cartola o fantasmazinho da fuga do passado, mostrando quem tem efectiva “credibilidade”. Fazer política em Portugal é fácil. Basta não ter qualquer ideia nova sobre o que fazer com a política em Portugal.

Fechar o círculo

Julho 7, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 29/5/2008)

A imprensa americana de referência (New York Times, Washington Post, etc.), cujas tendências de esquerda não estão por provar, continua bastante excitada com Obama. Multiplicam-se os paralelos: Obama tem o carisma de John F. Kennedy, a oratória de Martin Luther King e a energia jovem de Robert F. Kennedy. O ponto comum a estas comparações são os anos 60. Como se o sonho incompleto daquela geração pudesse finalmente cumprir-se. Compreende-se. Depois da retirada do Vietname (a sua grande vitória) seguiu-se um longo periodo de domínio político e ideológico conservador (se exceptuarmos o problemático interlúdio de Carter e a esquerda envergonhada de Clinton).

Mas esta geração, que tem hoje entre 60 e 70 anos, não conseguiu evitar até agora a imagem de um certo cansaço e derrota moral (feita de compromissos com o “sistema”) que a tornou pouco atractiva (basta pensar em John Kerry). Obama deu-lhe um rosto jovem. Mas trata-se apenas do rosto. As suas ideias (e mais do que as ideias, que continuam pouco conhecidas, a retórica) são esse regresso ao círculo mágico interrompido algures entre a retirada de Saigão e a eleição de Reagan. Agora que a geração de 60 atingiu a idade da respeitabilidade, pensa (provavelmente com razão) que chegou a sua hora, enfim. Estamos perante uma ironia: a geração que fez da recusa do establishment a sua afirmação, representa agora o establishment. Talvez por isso, Obama tenha condições para ganhar.

Mas também talvez por isso possa perder. A ideologia dos anos 60 sempre foi propriedade da classe média e da burguesia (embora não de toda), e teve dificuldade em chegar mais longe. Como então com outras coisas, há hoje no apoio a Obama uma espécie de auto-encantamento e auto-contentamento de quem se acha do lado correcto da História. No entanto, como então, fora de certos círculos, nem toda a gente partilhou a mesma evidência. Obama e os seus apoiantes correm o risco desta ilusão e correm o risco da surpresa. A mesma surpresa que sentiram quando Bush foi reeleito. As possibilidades são maiores agora, mas será que a América lhes reservará outra surpresa?