Archive for Fevereiro, 2011

Agora nem isso

Fevereiro 26, 2011

(Publicado no jornal Metro, 24/2/2011)

O mais interessante da História é a ironia. Há dois anos, o mundo e os EUA votaram em Barack Obama em boa parte contra a “agenda da liberdade” do antigo presidente Bush. Nos anos anteriores tinha aparecido uma estranha sensibilidade à sensibilidade do “mundo islâmico” em relação à “arrogância ocidental”. Tínhamos de entender a “milenar cultura islâmica” e as suas “especificidades”, que eram “irredutíveis” ao “rolo compressor do Ocidente”. Obama desmultiplicou-se em discursos: em fársi (dirigidos à elite iraniana) ou em inglês (ao “mundo islâmico”); a mensagem era clara: os regimes do norte de África e Médio Oriente eram estáveis, a sua não era a cultura ocidental, tínhamos de nos entender com eles. Dois anos depois, a “agenda da liberdade” explodiu nas mãos do presidente que a recusou, e o presidente não sabe o que fazer. O espectáculo de hesitação da administração Obama impressiona. Onde está a arrogância ocidental quando precisamos dela?

A estupefacção de Obama e a incapacidade para agir de forma coerente demonstra um facto importante: estas revoluções do mundo islâmico estão também a ser feitas contra o presidente americano, que recuperou o carinho para com as autocracias locais. A clareza da arrogância ocidental na presidência dos EUA seria agora essencial para tentar conduzir o processo na direcção mais próxima possível da criação de democracias locais. Mas, tal como já aconteceu com a revolução iraniana de 2009, a oposição moderada àquelas ditaduras deve ser o lugar mais solitário do mundo: sem apoio ocidental, ela não tem organização, e quem cobre o vazio é o radicalismo islâmico. Veja-se o caso do Egipto: apesar do folclore muito apreciado pela classe jornalística ocidental do facebook e do twitter, o Egipto não passa neste momento de uma ditadura militar, com a Irmandade Muçulmana à espreita. Claro que tentar conduzir o processo no sentido da liberdade moderada não garantia sucesso automático. Mas ao menos era uma tentativa. Agora nem isso.

Cada geração tem a Deolinda que merece?

Fevereiro 20, 2011

Esquerda

Fevereiro 18, 2011

(Publicado no Diário Económico, 17/2/2011)

Há sempre uma esquerda à esquerda da esquerda. É a história da esquerda. A esquerda nasceu liberal no século XVIII, mas logo apareceram então esquerdas à esquerda dessa primeira esquerda (jacobinos, babouvistas…). No século XIX apareceu a esquerda socialista e social-democrata, à esquerda das anteriores, e no século XX a esquerda comunista, ainda mais à esquerda. Mas à sua esquerda teve de nascer o esquerdismo.

A derrota histórica do comunismo e do esquerdismo não acabaram com este jogo de caixinhas chinesas. E Portugal é agora vítima disso. O espectáculo que a esquerda parlamentar portuguesa dá por estes dias é notável: um Governo de esquerda, do Partido Socialista, é ameaçado por uma moção de censura de um partido de esquerda, o Bloco de Esquerda, que, naturalmente, acusa o Governo de ser de direita; mas, como é evidente, não podia faltar a ameaça de outra moção de censura do outro partido de esquerda, o Partido Comunista, tentado a provar que é ainda mais de esquerda do que o resto da esquerda. No outro dia, foi possível ver João Semedo (ex-comunista e agora do BE) convidar o PC a “convergir com o Bloco de Esquerda” não numa moção de censura conjunta mas apresentando outra moção de censura. Quem pode não ficar fascinado com tudo isto?

O BE está obviamente a punir-se na carne pelos seus lamentáveis “desvios de direita”, que alguns dos seus membros alimentam e que tiveram a sua mais recente materialização no apoio a Manuel Alegre em conjunto com o PS. Alguns no BE sonham em entrar para o “arco da governação”, transformando-se numa “ala esquerda” do PS. Já vimos sinais disto na corrente legislatura, em que um intelectual gay e próximo do BE se transformou em deputado do PS para fazer avançar a agenda gay do BE. Mas é evidente que a concretização final desse passo só poderá ocorrer com uma cisão do BE. O PS, claro, espera-os de braços abertos. É também essa a sua missão histórica: reciclar antigos radicais de esquerda cansados de não terem influência. Mário Soares começou por ser comunista; Jorge Sampaio, João Cravinho ou Eduardo Ferro Rodrigues, esquerdistas; José Magalhães, Pina Moura ou Mário Lino, comunistas…

Pior é estas querelas de família terem consequências nacionais. Da moção de censura não resultará nenhum quadro parlamentar recomendável: não vai passar e continuaremos a ter um governo minoritário, agora com as relações completamente envenenadas com o resto da esquerda; caso passasse e houvesse eleições, arriscávamo-nos a ficar na mesma, fosse com o PS ou com o PSD. Uma boa parte da esquerda nunca gostou da democracia liberal. Porque haveria de querer ajudar a nossa a funcionar?

A grande história

Fevereiro 18, 2011

(Publicado no jornal Metro, 17/2/2011)

Parece que a grande história das eleições presidenciais ainda estava por contar. Durante dias, o PS e a esquerda em geral, por razões diferentes, quiseram fazer-nos crer que essa história era a da abstenção, a do Presidente com menor votação de sempre, com a legitimidade ferida pelos “casos”. Afinal, a história era a da derrota da frente de esquerda que o BE quis montar e o PS (de Sócrates) teve de aceitar, em torno da candidatura de Manuel Alegre. Como agora se percebe bem, a grande perdedora das eleições foi a estratégia de aproximação do BE ao “arco do poder”. É uma velha tentação do BE. Vinte e tal anos de ruído inconsequente, com as causas de “costumes” roubadas pelo próprio PS, colocaram-no numa encruzilhada: ou assumir a “respeitabilidade”, como uma espécie de “ala esquerda” do PS (aquilo a que noutros tempos se chamava o “entrismo” – de “entrar” no “sistema”), ou continuar a luta contra o “sistema”. Com a derrota de Alegre, falhou o “entrismo”. E não se vislumbra no horizonte uma oportunidade próxima semelhante. Um partido como o BE não pode estar muito tempo sem agitar. Quando o PC ameaçou “censurar” o Governo, o BE não podia ficar-se e antecipou-se.

O resultado é uma acção puramente destrutiva, que não procura criar condições de governabilidade e, por paradoxal que pareça, dá um novo balão de oxigénio ao PS. A moção de censura não vai passar, porque o PSD não a vota, e Sócrates poderá voltar a gritar aos quatro ventos que “não há alternativa” a si próprio. Se passasse, porque o PSD a votaria, haveria ainda uma hipótese de Sócrates ganhar, mesmo se num quadro muito parecido com o actual. Quanto ao PSD, arrisca-se a ser o grande perdedor de tudo isto. Não votando a moção, parece não querer assumir-se como alternativa. Se a votasse, poderia ver o PS ganhar ou então, pior ainda, ganhar ele próprio sem condições de governabilidade. No final, perdemos todos, com o sistema político aparentemente incapaz de encontrar soluções funcionais. Parabéns ao Bloco!

 

É melhor?

Fevereiro 11, 2011

(Publicado no jornal Metro, 10/2/2011)

São insondáveis os caminhos do debate político em Portugal. Durante meses, agitou-se por aí o fantasma do “FMI”: que uma “intervenção do FMI” era uma “vergonha” e uma “derrota”, que era um “fracasso” do país em geral e do Governo em particular. De repente, desde o Conselho Europeu de sexta-feira passada, parece que essa intervenção se tornou improvável, o que ainda está por provar. De qualquer forma, a nova perspectiva deu imensa alegria a imensa gente. O jornal Expresso, por exemplo, encheu a primeira página com o título garrafal “FMI já não vem”, com evidente alívio. Artigo atrás de artigo explicou como estaríamos perante uma “vitória” do Governo, mesmo quando já se percebeu qual é a alternativa. O Conselho Europeu visou criar um “mecanismo europeu” de salvação das economias do euro em crise. Na realidade não criou nada, protelando tudo para Março. Mas se vier a criar, ficaram a conhecer-se as contrapartidas: impor a esses países uma série de medidas que os seus eleitorados não votaram e os seus parlamentos e governos não decidiram. Tudo por iniciativa de dois governos estrangeiros, o alemão e o francês, e não das apropriadas instituições europeias.

Vá-se lá saber porquê isto é visto como menos grave do que a “vinda do FMI”. Claro que a “vinda do FMI” também corresponderia a uma perda de independência do país (ou de soberania, como se gosta de dizer agora) e à transformação das instituições portuguesas em executoras de medidas “lá de fora”. Mas uma intervenção do FMI é, por definição, temporária: só existiria até ao momento em que o país voltasse a ser capaz de se governar a si próprio. Já estas decisões europeias são limitações permanentes de independência, parturindo um mostrengo que é e não é uma espécie de Estado-Nação europeu, onde ainda por cima não se seguem os procedimentos de decisão democráticos. Porque será isto um êxito por comparação com a “vinda do FMI” escapa à compreensão humana (pelo menos tal como existe fora do debate político português).

A AD

Fevereiro 4, 2011

(Publicado no Diário Económico, 3/2/2011)

A direita portuguesa vive imersa no mito da AD, o tempo em que foi feliz: unida, venceu e mudou o país. Mas vale a pena recordar que a AD não se limitou a ser um arranjo eleitoral. Estávamos em 1979-1980 e a AD era sobretudo um projecto de mudança que, entre outras coisas, visava demonstrar que a direita podia governar em democracia e reformar as instituições e a economia sem que isso fosse o regresso ao fascismo. Não quer dizer que o país não esteja hoje maduro para outro projecto de longo alcance visando alterar o quadro profundo da nossa democracia. Muito pelo contrário. A sensação de crise que atravessa o país favorece-o. Preciso é saber se PSD e CDS estão maduros para protagonizar semelhante projecto.

Dois dias depois das Presidenciais, Paulo Portas veio logo sugerir uma nova AD. Na ausência do tal projecto, que Portas não enunciou, tudo indica estarmos perante um simples arranjo eleitoral. Nesse sentido, o passo foi acertado. Portas tornou-se um protagonista instantâneo e lançou um debate, que vai condicionar o PSD. Só que não é nada certo que o PSD queira uma nova AD. Não por acaso, Passos Coelho desvalorizou imediatamente a proposta. O PSD tem à sua frente vários caminhos que se bifurcam. Desde logo, alimenta esperanças de uma maioria absoluta à Cavaco, coisa que esvaziaria, à esquerda, o PS, e à direita, o CDS. Tudo depende da erosão que a crise causar no actual Governo. Claro que também sabe que nada disto é garantido. A erosão pode nem sequer funcionar. Mas presumindo que funcione, pode simplesmente dar origem a uma maioria relativa do PSD, o que exigiria um plano de coligação. Mas aqui volta a existir mais do que uma hipótese. Uma delas seria a tal AD. Mas outra seria algo de semelhante a um Bloco Central, coisa para que a situação de crise convida e a vocação centrista do Presidente da República reeleito também.

PSD e CDS não parecem, por isso, estar espontaneamente apontados a um projecto de mudança que pudessem reivindicar como apenas seu. É verdade que têm vindo do PSD uns rumores, mas tudo soa um pouco a estafado: a velha querela constitucional ou a reforma do mercado de trabalho. Talvez valesse a pena pegar nos assuntos de outra maneira. Um exemplo: a reforma do mercado de trabalho não é importante para o flexibilizar (ele já é razoavelmente flexível), mas para acabar com a cisão geracional que acentua o desemprego e a precariedade jovens. Outro exemplo: não vale a pena repetir que a Europa não se discute; a Europa é um dado adquirido do nosso quadro institucional, mas a actual crise veio mostrar que a maneira como nos inserimos nela precisa de ser reavaliada. E há muito mais por onde olhar para pôr o país a falar e a discutir de outra maneira.

Um novo começo?

Fevereiro 4, 2011

(Publicado no jornal Metro, 3/2/2011)

Foi no mesmo Cairo agora a ferro e fogo que o Presidente Obama fez, em Junho de 2009, um longuíssimo discurso ao “mundo islâmico”. Com o pomposo título de “Um novo começo”, o discurso visou reconciliar os EUA com as elites governantes do Médio Oriente, depois dos perturbadores oito anos de Bush. O simbolismo não podia ser maior: a cidade que Obama escolheu para regressar ao statu quo ante é a mesma que agora o recusa com fragor. E não é só no Egipto: o mesmo já tinha acontecido há dois anos no Irão e está a acontecer na Tunísia, na Jordânia, no Iémen e na Síria. Em todos os casos a administração Obama foi apanhada em contra-pé. Não surpreende, por isso, que envie mensagens sem grande coerência, entre a estabilidade dos regimes locais e a sua deposição.

Lembre-se qual era a visão global das administrações Bush para o Médio Oriente: uma onda de democratização na região, inspirada pela transformação do Iraque. Décadas de regimes autoritários presumivelmente dedicados a bloquear a ascensão do islamismo radical tinham acabado no 11 de Setembro. Como terá dito um dia Condolezza Rice: no Médio Oriente, os EUA trocaram a liberdade pela estabilidade e acabaram sem nenhuma. Bush, perante os eventos das últimas semanas, tentaria que a revolta se canalizasse para movimentos amigos da democracia. Obama hesita entre a sobrevivência dos regimes existentes e o seu fim. No final, graças às suas tergiversações, não se sabe o que obterá. Muito provavelmente, a repressão brutal das revoltas, ou então um processo descontrolado favorável ao islamismo radical. E talvez venha mesmo a obter os dois. No meio disto, o Iraque aparece efectivamente como um exemplo de regime democrático na região, com as limitações naturais decorrentes do meio. Se Obama apontasse para lá e convidasse os países agora em revolta a emulá-lo seria, com efeito, uma evolução interessante. O tal novo começo para o “mundo islâmico”. Não seria bem o imaginado por Obama, mas seria sem dúvida um novo começo.