Archive for Março, 2010

Pobre Estado

Março 26, 2010

(Publicado no jornal Metro, 25/3/2010)

Diz que a esquerda (incluindo agora uma presumível “ala esquerda” do PS) anda desgostada com as brutalidades sociais do PEC. Não quero ser o arauto das más notícias, mas será o primeiro de muitos desgostos. Já todos temos saudades daquele tempo longínquo (julgo que há seis meses) em que estávamos perante o “regresso do Estado”, espécie de Super-Homem resgatando a humanidade das garras maléficas do “neoliberalismo”, sob a forma particularmente repulsiva do “capital financeiro”. Confesso que nunca percebi como é que ajudar o “capital financeiro” com empréstimos e garantias estatais era combatê-lo. Mas enfim, eram outros tempos.

É que agora é o pobre do Estado a precisar de assistência. Sempre me pareceu que a principal vítima da crise financeira não seria o fantasmagórico “neoliberalismo” (que ninguém ainda explicou o que é) mas o Estado-Providência ocidental. A esquerda não reparou que o recente crescimento do “capital financeiro” anterior à crise era já uma forma de assistência (ou de outsourcing, como agora se diz) ao Estado-Providência. Foi o “capital financeiro” que permitiu a compra de casa própria para quase todos; foi o mesmo “capital financeiro” que permitiu a compra de carro para o povo; foi ainda o “capital financeiro” quem pôs cartões de crédito no seu bolso. Não surpreende assim que quando o “capital financeiro” precisou de ajuda para enfrentar dificuldades o Estado viesse tão pressuroso ajudá-lo.

Agora que não há dinheiro para tudo (garantir o bem-estar da população e salvar o “capital financeiro” ao mesmo tempo), resta cortar. Não começou hoje: a reforma da Segurança Social de 2006 em Portugal, por exemplo, significou uma diminuição real das pensões. Que continua neste PEC. O Estado-Providência, criado na promessa de prosperidade para todos, vem-se transformando num instrumento de empobrecimento de todos. E se não me engano, assim vai continuar. Disse-o o ministro das Finanças: “a melhor forma de destruir o Estado social é levá-lo à falência”.

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They do so much

Março 22, 2010

Euro Vision

Março 22, 2010

Sempre em contrapé com a Europa, estes americanos. Obama não terá percebido que do lado de cá, agora, a ordem é cortar no Estado-Providência (vide os PECs dos vários países).

13

Março 21, 2010

Child’s play

Março 21, 2010

Segundo julgo perceber, só cometida por padres é que a pedofilia é um crime horrível.

Ah, grandes keynesianos!!

Março 21, 2010

Estava a ver que nunca mais chegava o momento em que a ideia deixava de ser património exclusivo do americano médio estúpido e chegava à respeitabilidade intelectual: Paul Krugman, a Nobel Prize-winning economist, has taken to advocating a 25 per cent “surcharge” – he refuses to use the more descriptive term of “import tariff” – on goods from China as a way of bringing the Chinese leadership to heel over currency reform. So potentially dangerous and out of character is this idea that when I first read it, I assumed he was being ironic. But sometimes the cleverest of people can also be the most stupid, and he’s now said it so often that you have to believe he’s serious.

El Goodo

Março 19, 2010

Uma democracia iraquiana

Março 19, 2010

(Publicado no jornal Metro, 18/3/2010)

Os tempos mudam mesmo: não houve questão internacional que mais tivesse dividido as opiniões públicas ocidentais do que a Guerra do Iraque. De 2003 a 2007, encheram-se sobre ela páginas e páginas; carreiras políticas foram por ela desfeitas; e um Presidente dos EUA foi eleito em grande medida por a ela se opor. Hoje pouco se fala do Iraque, mas a sua jovem democracia vive um momento determinante. É pena que pouca gente se interesse, ou alguma vez tenha interessado, pela sobrevivência da democracia iraquiana. Dever-se-á ao facto de ter sido promovida pelo horrendo Bush. Para as opiniões públicas ocidentais, sempre interessou mais demolir Bush do que acarinhar essa espécie rara que é uma democracia representativa no Médio Oriente. Mas, mesmo sob esta generalizada hostilidade, os iraquianos lá têm conseguido construir um regime aceitável. Pouca gente terá ligado, mas na semana passada o Iraque teve a sua segunda eleição legislativa em sete anos. Apesar de alguma violência e de suspeitas de corrupção, parece que o processo (dentro das limitações do contexto) foi razoavelmente conseguido.

Ao contrário do que muitos julgam, as tropas americanas já não desempenham um papel tão importante na segurança do país, tendo sido largamente substituídas por forças locais. Não será, por isso, tão difícil a retirada prometida por Obama (e já antes prometida por Bush, na realidade). Mesmo assim, essa retirada será uma transição crucial, esperando-se apenas que a administração Obama não se precipite, por zelo ideológico, numa acção que comprometa o futuro do regime, ainda refém de divisões étnicas e religiosas que se manifestam muitas vezes de forma violenta.

Bush dizia em 2003 que queria ver, no prazo de cinco a dez anos, uma democracia funcional no Iraque que servisse de exemplo aos vizinhos. Passaram sete anos e já esteve mais longe. Ninguém cá fora agradecerá a Bush nem se esforçará muito para apoiar este regime. Mas ele lá vai fazendo o seu caminho.

“This is just really hard”

Março 12, 2010

 Almost every element of Barack Obama’s once-heralded new “reset” foreign policy of a year ago either has been reset or likely soon will be.

Consider Obama’s approach to the eight-year-old War on Terror. Plans made more than a year ago to shut down the detention center at Guantanamo Bay by January 2010 have stalled. Despite loud proclamations about trying Khalid Sheikh Mohammed, the architect of 9/11, in a civilian court in New York, such an absurd pledge will probably never be kept.

Talk of trying our own former CIA interrogators for being too tough on terrorist suspects has also come to nothing. And why not put an end to the second-guessing of anti-terrorism protocols, since the Obama administration, in a single year, has quadrupled the number of assassinations by Predator drones of suspected Taliban and al-Qaeda operatives in Pakistan? After all, the targeted killing of hundreds of suspects is far more questionable than waterboarding three confessed killers.

The Obama administration seems to have embraced the once widely criticized Bush-Petraeus strategy in Iraq of gradual withdrawal in concert with Iraqi benchmarks. Indeed, Vice President Joe Biden in Orwellian fashion claims that our victory in Iraq may be one of the current administration’s “greatest achievements.” Was it not a defeatist Biden who not long ago advocated the trisection of Iraq into separate nations?

[…] President Obama was once a fierce critic of the former administration’s Mideast policies. A year ago, he thought new outreach to the Palestinians and rebukes to the Israelis might lead to a breakthrough. They did not. In a Time magazine interview with Joe Klein, Obama confesses of the 70-year struggle: “I’ll be honest with you. This is just really hard.”

O regime e a ilusão das formas

Março 12, 2010

(Publicado no jornal Metro, 11/3/2010)

É mais ou menos cíclico: quando o regime apresenta sinais graves de descredibilização, como acontece agora, surgem logo imensas ideias para o substituir. Entre a avalanche de casos judiciais, todos com contornos vagamente grotescos, a ameaça de instabilidade política e a aparente incapacidade do sistema político para fazer frente aos mais graves problemas do país (endividamento, desequilíbrio das contas públicas, falta de crescimento económico), reapareceram as sugestões para substituir o célebre “semi-presidencialismo” por duas alternativas: ou um “verdadeiro parlamentarismo”, assente em maiorias sólidas, ou um “verdadeiro presidencialismo”, conferindo ao Presidente poder executivo.

Sem desvalorizar as boas intenções dos reformadores voluntários, vale a pena considerar umas quantas coisas. Parlamentarismos e presidencialismos há muitos. Em todas as constituições e regimes, mais importante do que a sua efectiva natureza, é o grau de compromisso e aceitação que geram. Todos os períodos constituintes são turbulentos, quando não mesmo violentos. O mais importante de um processo constituinte é chegar ao fim, depois de alcançados os necessários compromissos. Mudar agora a natureza do regime português seria abrir um período constituinte, com a respectiva luta para fazer prevalecer opiniões. Quem sabe o que se alcançaria no fim? Seria melhor? Seria pior? Seria parlamentar? Seria presidencial? Seria semi-presidencial outra vez?! E, se fosse parlamentar, seria maioritário, à inglesa? Misto, à alemã? E se fosse presidencial, daria grande poder executivo ao Presidente, à francesa? Ou controlá-lo-ia apertadamente, à americana?

Uma das ilusões políticas mais perigosas é a das formas. Não que não sejam importantes: a forma democrática é obviamente preferível à autoritária. Mas dentro das formas democráticas, pouco se resolve alterando a forma concreta existente. Mais importante é aceitá-la como uma entre muitas possíveis e aprender a viver com ela.