Adeus às armas

(Publicado no jornal Metro, 30/6/2011)

As democracias ocidentais nem sempre são bons parceiros militares. Oscilando entre o espírito de missão, que durante algum tempo as faz não pensar em mais nada, e a passividade de quem gosta muito de chorar a desgraça do outro mas à distância, de preferência pela televisão, nunca se sabe muito bem o que vão fazer. A semana passada, o presidente Obama anunciou o princípio da retirada do Afeganistão, apenas dois anos depois de ter lançado mais 30.000 soldados no terreno, para uma arrancada final vitoriosa. Como toda a gente se lembra, o Afeganistão era a “guerra necessária”, por oposição à “guerra de escolha” (uma má escolha) do Iraque. Passou o tempo e a arrancada não resultou. Mas Obama quer-nos fazer crer que sim (talvez querendo convencer-se a si próprio). Ao contrário do que disse (acentuando a presumível derrota da al-Qaeda), os soldados americanos vão deixar atrás de si um país pronto para a guerra civil. Coisa que se juntará ao lamentável episódio líbio, onde as tribos se encontram já em plena guerra civil. No outro dia, o secretário da Defesa americano queixou-se de que os países europeus, ao fim de apenas onze semanas de combates, já não tinham munições para continuar a ajudar os seus amigos “rebeldes”. Entretanto, a coligação é um saco de gatos. Ou consegue um avanço final e rápido, ou certamente abandonará a Líbia em pleno banho de sangue.

No meio disto, sobra uma intervenção bem sucedida, a do Iraque. Curiosamente, aquela que toda a gente detestou, que envenenou as relações internacionais na última década, que determinou a desgraça do anterior presidente americano e em parte elegeu Obama. E aquela de que, ainda hoje, ninguém fala. O Iraque está longe de ser a perfeição, mas expulsou um dos mais horríveis ditadores do mundo e mantém uma interessante funcionalidade democrática. Porque não se alegram os países ocidentais com este seu contributo? As democracias do ocidente devem parecer muito estranhas vistas a partir do deserto da Líbia.

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