Archive for Dezembro, 2010

Armar barraca

Dezembro 24, 2010

Diz-se que Portugal tem a direita mais estúpida do mundo. É capaz. O que já não oferece discussão é que tem a esquerda mais estúpida do mundo. É a ela que devemos os dois momentos de antologia destas presidenciais: o debate das galinhas e agora o debate da tenda.

Tão estúpido foi que não resultou: veja-se como o spin está fraquinho, se excluirmos uns profissionais (amadores?) de atiradores de lama que, vá-se lá saber porquê, se comprazem nisso, mesmo quando a lama já não acerta em ninguém.

Foi tudo tão mau, correu tudo tão mal que, ou muito me engano, ou vai funcionar ao contrário: mais pessoas decidiram-se ontem a votar Cavaco.

Deviam era ter contratado o Chico Lopes, que esteve muito bem.

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Um ano para lembrar

Dezembro 17, 2010

(Publicado no jornal Metro, 15/12/2010)

Rabanadas, filhós, fatias douradas, azevias, bacalhau cozido (com grão, cebola, alho e coentros), a família aos gritos lá em casa e uma grande festa de fim de ano. O Natal é, e sempre foi, sobretudo uma festa pagã. Os ocidentais usaram a solenidade religiosa que as igrejas conferem ao nascimento de Cristo para colonizarem a época com uma espécie de aproximação ao País de Cocanha, onde a festa e o descanso são perpétuos e a abundância completa. Antes assim. É melhor aproveitar, porque vem aí um ano para lembrar. Ou esquecer…

Uma pessoa nem sabe bem por onde começar. Talvez pela economia: vêm aí os cortes de salários e as subidas de impostos, e a recessão. O país vai continuar em dificuldades para pagar a dívida externa e apresenta-se em todo o seu esplendor a ameaça de saída do euro. O que nos conduz à nossa Europa e à sua manifesta incapacidade para lidar com isto que nos está a acontecer (a nós e, vendo bem, aos outros todos). A Europa, que tem sido o nosso farol do progresso, ameaça apagar-se numa algaraviada deprimente. O euro talvez desapareça, e é o menos importante. Mais importante é o que deveria preservar-se: a liberdade de comércio e de circulação de capitais e pessoas. Como retoque final, aproxima-se também a hipótese de disfuncionalidade política: o Governo apresenta sinais de incapacidade de sobrevivência; umas eleições em consequência da sua queda poderiam não produzir maioria estável (é improvável que o PSD ou o PS ganhem com maioria absoluta e o PSD e o CDS juntos podem não chegar para isso) e ergue-se então a grande incógnita, com a chave do sistema posta nas mãos do futuro Presidente da República.

Em 2011, a ameaça é de colapso económico, europeu e político, e todos estão ligados entre si. Para que a catástrofe não seja total, resta esperar que consigamos distinguir o essencial do acessório. Como num incêndio: só salvamos aquilo sem o qual não podemos viver. E para o salvarmos é melhor deixar arder o resto.

Porque sou contra o fundador da WikiLeaks

Dezembro 14, 2010

Escritor Paulo Coelho apoia fundador da WikiLeaks.

Impossível Alemanha

Dezembro 12, 2010

Impossível

Dezembro 12, 2010

(Publicado no Diário Económico, 11/12/2010)

A comunidade de países do euro lá continua a sua existência esquizofrénica. As múltiplas personalidades não se resumem às diferenças entre países, mas também às diferenças dentro dos próprios países. Um dia, o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble assegura que “a Alemanha não pode viver sem o euro”, no outro, a chanceler Angela Merkel recusa-se a adoptar os passos necessários para isso: aumentar o capital do mecanismo de estabilização do euro e criar uma dívida pública europeia. Até quarta-feira da semana passada, os governos da zona euro deixaram os juros das dívidas nacionais de risco subir até níveis recorde, para na quinta-feira o BCE prometer liquidez praticamente ilimitada (até Abril) aos sistemas bancários e a compra de dívida no mercado secundário. Claro que as declarações de Jean-Claude Trichet apareceram quando os juros das dívidas italiana e belga começaram a crescer e quando a França foi obrigada a fazer declarações explicando que não era a Grécia nem Portugal. Ou seja, quando o problema ameaçou deixar de ser periférico para passar a ser do centro.

Tudo isto mostra a situação verdadeiramente impossível em que se encontra a zona euro. A Alemanha tem incentivos para acabar e não acabar com o euro. Para acabar, porque sabe que enquanto o euro existir o desequilíbrio entre a sua economia excedentária e as dos deficitários exigirá transferências de rendimento para estas ou então um processo de emissão monetária que reduza o valor do euro, tudo coisas que não quer. Para não acabar, porque perderia clientes (os deficitários) e porque teria de nacionalizar os empréstimos dos seus bancos que têm comprado dívida periférica. Ora, no final, isto é o mesmo que proceder à tal transferência de rendimento que ela recusa. Os periféricos também têm incentivos para acabar e não acabar. Para acabar, porque poderiam desvalorizar as suas novas moedas, aumentando a competitividade e as exportações. Para não acabar, porque teriam de reescalonar as suas dívidas, perder acesso ao financiamento exterior e, muito provavelmente, nacionalizar a banca.

A situação é realmente impossível e resume-se ao dilema fundamental da zona euro. Na ausência de qualquer coisa que ninguém está a vislumbrar agora, restam duas hipóteses: ou o fim do euro ou o princípio dos Estados Unidos da Europa. O problema é que esta última hipótese é um salto quântico de tais dimensões que só por irresponsabilidade pode ser defendida alegremente. São tantas as questões que levanta, é tal a desmesura, que os países europeus mais ciosos da sua nacionalidade e da sua democracia (o que não parece ser o caso de Portugal, onde se implora por isto) não sabem mesmo o que fazer.

 

Uma cassete

Dezembro 10, 2010

(Publicado no jornal Metro, 9/12/2010)

A direita portuguesa, mais alguns economistas e organizações internacionais (OCDE, UE…) têm uma cassete, que é a de que, para haver crescimento económico, o mercado de trabalho nacional precisa de ser “flexibilizado”, uma vez que é muito “rígido”. Ao que parece, o Governo também a adoptou agora. Na realidade, o mercado de trabalho é razoavelmente flexível, por comparação com a maior parte dos europeus. O problema não é tanto a “rigidez”, mas a segmentação, i.e. a divisão entre um grupo de trabalhadores muito protegidos da eventualidade do desemprego e outro (em crescendo) muito desprotegido. Este é formado por aqueles com vínculos laborais precários (contratos a termo certo e “recibos verdes”) e que representarão já cerca de 25% da mão-de-obra total e quase metade da mão-de-obra jovem, muita da qual qualificada.

A cassete parte de uma verdade: temos a legislação que, na Europa, mais protege do desemprego o trabalhador individual a termo incerto. Foi para compensar isto que se desenvolveu a contratação dita precária (em que Portugal é só ultrapassado pela Espanha e Grécia). Mas mesmo dentro dos contratos a termo incerto, encontrou-se uma estranha fórmula que facilita o despedimento: o limiar para despedimentos colectivos é de dois (!) trabalhadores em empresas com menos de 50 trabalhadores e de cinco (!) em empresas com mais de 50 – talvez o mais baixo da Europa. Numerosos despedimentos colectivos são na verdade despedimentos individuais encapotados.

Qualquer projecto de “flexibilização” teria de confrontar estas realidades, diminuindo a protecção de uns mas aumentando a dos precários. Paradoxalmente, uma reforma que incorporasse isto poderia aumentar a rigidez. A flexibilidade não é, assim, tanto um problema económico quanto um problema social. Reformar o mercado de trabalho tem óbvios méritos: seria uma boa forma de resolver esta injustiça, que também é geracional e feita contra os qualificados. Mas não parece que desse um grande contributo para o crescimento.

Era assim há quarenta anos

Dezembro 8, 2010

Fugas Wiki

Dezembro 3, 2010

(Publicado no jornal Metro, 2/12/2012)

Parece que o choque foi planetário com as revelações contidas em 250.000 documentos do State Department dos EUA libertados pela organização Wiki Leaks (numa tradução aproximada, “Fugas Wiki”). É uma fuga que se segue a outras duas, sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque. Nesta, há considerações feitas por funcionários diplomáticos americanos de vários níveis sobre muita coisa. Recorde-se que são fugas de informação, fornecidas por alguém interno ao departamento, obtidas ilegalmente, à revelia dos visados. São conversas de circulação restrita, em que a linguagem é, digamos, “descontraída” (admite-se talvez a sua relevância por serem de funcionários políticos no desempenho de cargos públicos). Resta um problema: retiradas do contexto, elas têm pouco significado. Sobretudo, não revelam uma política externa.

Mais interessante foi a reacção dos tradicionais indignados com a política externa americana. O editorial do jornal Público (ecoando, aliás, os seus equivalentes Guardian e New York Times), um óptimo barómetro local do que é a opinião global boa e progressista, lembrou-se imediatamente (e muito bem) de perguntar se a Wiki Leaks também revelaria documentos chineses ou iranianos. Desde logo, seria interessante saber o que aconteceria ao informador, na ausência de um exílio nos… EUA. Mas o editorial também lamentou que tudo isto afectasse a administração Obama. É bonito verificar como todos podemos ser ordeiros e responsáveis.

No final, sobra um exercício gratuito: ficamos a saber que Khadafi não dispensa uma “voluptuosa enfermeira ucraniana”, que Putin e Medvedev são vistos por algum diplomata como o “Batman” e o “Robin” da Rússia (note-se a insinuação gay), que Berlusconi é um “megafone” de Putin e organiza “orgias selvagens”, que os EUA têm medo do programa nuclear do Irão, que a Arábia Saudita pediu aos EUA para bombardearem o Irão, que a China não gosta da Google, e outras coisas do mesmo quilate. Era isto que ia mudar a face da guerra, do jornalismo e da política externa mundial. A sério?