Austeridade e crescimento

(Publicado no jornal Metro, 7/7/2011)

Por aquilo que se vai vendo por aí, parece que a grande questão das agora célebres “economias periféricas” do euro (onde se inclui Portugal) é a austeridade para equilibrar as finanças públicas. Mas a grande questão não é essa. A grande questão é o crescimento económico. Vendo bem, Portugal anda há mais ou menos dez anos (desde 2002 e descontando o ano de 2009) a aplicar diferentes versões de austeridade, de maior ou menor intensidade. E ao mesmo tempo que as aplicou viveu a sua pior década de crescimento desde finais do século XIX. Não quer dizer que haja uma relação de causa-efeito imediata entre as duas coisas, mas certamente que os programas orçamentais restritivos não ajudaram muito, em combinação com um nível de produtividade que nos torna pouco competitivos e um câmbio que o acentua. O problema está, portanto, para lá da austeridade. O propósito da austeridade é apenas garantir uma tesouraria positiva, através dos empréstimos externos: equilibradas as contas, se for possível equilibrá-las, como vai a economia e o país sustentar-se crescendo?

O primeiro acto do novo Governo foi insistir na austeridade, com o novíssimo imposto extraordinário, bem brutal, por sinal. Claro que há muitas promessas de “reformas estruturais”, visando o crescimento: redução da TSU, reforma do mercado de trabalho, reforma da Justiça, e outras coisas menos relevantes. Mas tudo isto servirá para compensar não só o efeito da austeridade, que em si mesma trava o crescimento, como também da produtividade, que é metade da alemã e três quartos da espanhola, e do colete de forças do euro, que encarece os nossos produtos no mercado mundial (sobretudo europeu). É suficiente? Julgo que nem os seus proponentes têm a certeza. A parada é muitíssimo alta e, se não resultar, a austeridade, que é aquilo que de certeza todos vamos sentir, poderá ter sido um enorme e trágico exercício de futilidade, cujas consequências estamos já a pagar e voltaremos a pagar mais tarde.

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