Archive for Outubro, 2008

Portugal, o euro e a crise

Outubro 31, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 30/10/2008)

Numa entrevista dada a semana passada, José Miguel Júdice afirmou que, “se não fosse o euro, Portugal estaria na mesma situação da Islândia”. Já ouvi este argumento semi-verdadeiro a mais do que uma pessoa. Mas talvez valha a pena pensar de outra maneira: se Portugal está numa situação de grande endividamento (daí o paralelo com a Islândia, o único relevante, pois a origem dos respectivos endividamentos é muito diferente), em grande medida deve-o ao euro. Ou seja, se não fosse o euro, já há muito que teríamos sido forçados a corrigir o endividamento, ou nem sequer lá teríamos chegado.

O euro permitiu a Portugal várias coisas: uma, o aumento da credibilidade externa; outra, a valorização da moeda e a redução das taxas de juro; finalmente, o recente grande envidamento externo e a sua aparente irrelevância económica: afinal, em termos monetários, Portugal não passa de uma região de uma das maiores áreas monetárias do mundo – é como se, antigamente, nos preocupássemos com o endividamento da Beira Alta relativamente ao país. Portanto, foi o euro que gerou os incentivos para o endividamento (a valorização da moeda e a redução da taxa de juro) e criou as condições para ele (a credibilidade externa e a integração numa zona monetária extra-nacional). A valorização da moeda tornou-nos pouco competitivos e a redução da taxa de juro favoreceu o endividamento familiar para casas e consumo; a credibilidade externa e a integração na zona euro permitiu tornar o crescimento económico menos relevante para o bem-estar, dado que também permitiu um endividamento que em larga medida o substituiu.

Tudo funciona até haver uma crise séria. Ora, a crise está aí e agora resta ver quais as consequências e a forma como reagimos a elas. Por um lado, as famílias e as empresas vão ter mais dificuldade em satisfazer as suas dívidas e, logo, os bancos também terão dificuldade em satisfazer as suas dívidas aos credores externos; por outro, os próprios credores externos, a braços com dificuldades de pagamentos generalizadas pelo mundo fora, terão menos disponibilidade para financiar o endividamento português. Já aqui se disse que uma das grandes vítimas da actual crise poderia ser o euro. Não se trata de fazer previsões. Trata-se de ver o horizonte de ameaça. E se não é garantido, as ameças são muitas. Sendo que Portugal, como um dos países mais endividados da zona euro, está certamente na calha para ajudar a esse resultado.

Irresponsabilidade

Outubro 29, 2008

É o mais óbvio sinal de irresponsabilidade: a linguagem dos europeus continua a ser a de que esta é uma crise americana. Os europeus parece que nunca têm culpa de nada nem responsabilidade em nada (excepto quando invocam miríficas “terceiras vias” ou dão “lições” aos americanos). Mas talvez fosse bom perceber que esta é uma crise europeia: foram a Islândia, a Hungria, a Sérvia ou a a Ucrânia que o FMI veio “salvar”; são a Dinamarca e a Suécia que correm riscos; e é o euro a moeda que está sob pressão (não o dólar). E já sabemos que, por comparação com os europeus, os bancos americanos (no seu descontrole creditício) foram até bastante conservadores. A crise é nossa e está tudo preso por arames. Ajudar a resolver a crise passa por perceber isto e evitar grandes triunfalismos.

Apostas

Outubro 24, 2008

Para quando o fim da União Europeia (pelo menos tal como a conhecemos)?

Goodbye Norma Jean

Outubro 24, 2008

Fascist and proud of it.

Barracuda

Outubro 24, 2008

Fotobiografia.

O fardo do homem americano

Outubro 24, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 23/10/2008)

Tornou-se já um costume dizer que na origem da actual crise estão o endividamento e consumo excessivos dos americanos. As famílias estão endividadas, o Estado está endividado, o país está endividado. Tudo porque todos consomem acima das suas possibilidades. Também já se tornou costume propor uma solução: eles têm de começar a poupar. As duas ideias estão em grande parte certas mas, como também é costume, é tudo um pouco mais complicado.

A América endividou-se porque alguém pagou esse endividamento. E pagaram-no sobretudo aqueles que mais dependem dele para o seu próprio crescimento. Se os americanos não pouparam, alguém poupou por eles, em particular a China, mas igualmente o Japão. O consumidor americano é também em larga medida o consumidor chinês e japonês (e europeu). Sem o endividamento americano não teria havido milagre económico chinês, nem se teria verificado a réstia de crescimento económico do Japão e da Europa. O mecanismo é simples: o endividado consumidor americano compra produtos estrangeiros, sobretudo chineses (os mais baratos) e alguns japoneses e europeus (os mais sofisticados); como China, Japão e Europa não querem ou não podem comprar produtos americanos, uma queda do dólar seguir-se-ia, tornando os produtos americanos mais competitivos; o reequilíbrio faz-se através da compra de dívida pública americana, que leva a um acréscimo de procura do dólar e sua consequente valorização. É esta valorização que faz a subavaliação relativa das outras moedas, a qual permite aos produtos desses países continuarem a ser competitvos na América. O endividamento dos americanos tem sido do interesse de toda a gente: dos próprios e do resto do mundo. Tem sido o motor do crescimento da economia mundial e da globalização.

Portanto, se os americanos deveriam começar a poupar mais, simetricamente os outros deveriam começar a consumir mais. Os chineses teriam de abandonar o trabalho praticamente servil e converter os seus trabalhadores em consumidores modernos; os japoneses teriam de abandonar as suas políticas mercantilistas; e os europeus teriam de tornar as suas economias mais dinâmicas. Assim todos poderiam aceitar mais produtos americanos. Ou seja, o fardo do homem americano teria de ser mais repartido pelo resto do mundo. Entretanto, a América dá sinais de querer aligeirar o fardo mesmo sem consultar ninguém: assim ameaça a crise e assim ameaça Obama. O que segue pode não ser bonito.

Dardos

Outubro 23, 2008

 

Parece que este poiso dúbio foi agraciado com o Prémio Dardos, concedido pelo Espumadamente. Parece que as regras do Prémio Dardos são as seguintes:

 1. – Exibir a distinta imagem;
2. – Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. – Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos
.

Isto é, portanto, uma espécie de chain letter. Não é que goste muito de chain letters, mas não vou fazer a desfeita de parar a troca de retribuições. Assim, agradeço imenso ao Espumadamente e indico outros 15 blogues. O critério da escolha é “aqueles que costumo ler”. Haveria mais, mas só dá para 15:

31 da Armada

5 Dias (pré-cisão)

A Causa foi Modificada

Arrastão

Atlântico

Bichos Carpinteiros

Blasfémias

Bomba Inteligente

Desesperada Esperança

Mar Salgado

O Amigo do Povo

O Cachimbo de Magritte

O Insurgente

O Senhor Comentador

Obra da Mãe

Abre-te Sésamo

Outubro 21, 2008

Excitação

Outubro 21, 2008

Os euro-entusiastas andam muito excitados. Não só os líderes europeus se “uniram” para “evitar a crise” como ainda conseguem ir a Washington impor a Bush uma conferência internacional para “refazer o capitalismo”. Calma… Já há várias semanas que não ouço falar de salvações de bancos americanos. Quanto aos europeus, ainda ontem foram recapitalizados os seis maiores franceses e anteontem o Banco ING, holandês. Convém não esquecer: ao contrário do que diz Sarkozy (que esta é “uma crise americana”), esta é sobretudo uma crise europeia: o plano europeu de salvamento já vai em várias vezes o americano e, convém não esquecer outra vez, a “alavancagem” dos bancos europeus anda próximo do dobro da dos americanos.

Acima de tudo, este constante bater no peito europeu é mais uma arma de combate à crise. Ou seja, trata-se de um sinal de fraqueza, apesar das aparências em contrário. Trata-se de mais um sinal aos mercados para se acalmarem, porque a “Europa” está cá para os salvar. A verdade é que não está. Ou melhor, está mas já fez praticamente tudo o que podia fazer. Se mais alguma coisa corre mal, muito poucos instrumentos lhe restam. Esperemos que tudo continue mais ou menos bem.

Não quero ser moralista, mas já basta a crise. Este género de afirmação adolescente com que os euro-entusiastas se entretêm deprime ainda um pouco mais. E o pior é que correm o risco de serem vítimas da sua própria crença. Por exemplo, este editorial, que proclama uma vitória da Europa na crise, quase repete este outro, sobre o acelerador de partículas, que proclama uma vitória da Europa na ciência. Lembremo-nos: o acelerador de partículas parou uma semana depois de começar a funcionar e ainda hoje assim continua.

Picking flowers

Outubro 20, 2008

Apanhar flores em Starkville, Miss..