Archive for Março, 2008

Não negue à partida uma ciência que desconhece

Março 31, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 27/3/2008)

Os bancos centrais do mundo ocidental continuam a dar sinais de estarem dispostos a usar de quase todos os meios para salvar o sistema financeiro. Não há semana em que não injectem liquidez e até já salvaram explicitamente dois bancos que ameaçavam falência (o Northern Rock, há uns meses, em Inglaterra, e o vetusto Bear Sterns, ainda a semana passada, nos EUA). Estamos aqui naquela dimensão vagamente mística da economia e das finanças em que o fito é devolver “confiança” aos mercados.

O que se passa é mais simples do que parece. A origem do problema está nos empréstimos hipotecários a pessoas de rendimentos baixíssimos feitas por determinadas instituições americanas (o agora célebre mercado “subprime”). Mas a amplificação do problema tem outra raiz. É que, numerosos bancos por esse mundo fora aceitaram as garantias dadas pelas tais instituições como boas, e depois numerosos outros bancos, por sua vez, aceitaram as garantias dadas pelos primeiros como boas, e por aí fora numa espécie de grande cebola de garantias sobre garantias. Ou seja, a recente expansão do sistema financeiro internacional baseou-se na capacidade de pagamento das mais pobres famílias americanas.

Agora, os bancos têm medo de não ver ressarcido o crédito que fizeram confiando nas tais frágeis garantias. E os bancos centrais tomam as vezes daqueles que não conseguem pagar. No entanto, por muito reconfortantes que sejam estas medidas, estamos a falar aqui de acções exemplares. É como se os bancos centrais dissessem: “não se preocupem, não deixaremos ninguém afogado neste mar de dívidas”, embora saibam que não podem garantir a salvação de toda a gente. No fundo, o que esperam é que, ao salvarem um banco, os outros todos confiem que vão ser salvos, mesmo sabendo que isso não é verdade. É a tal dimensão mística: dão um exemplo e depois rezam para que ele tenha sido bem escolhido. Só que há um limite para isto, a menos que queiramos entrar numa espécie de regime inflacionário latino-americano. Até agora, o sistema vem-se aguentando. O problema aparecerá no dia em que o Banco de Inglaterra, o Fed ou o BCE não salvem o primeiro banco. Mais vale rezarmos juntamente com os bancos centrais para não vermos esse dia chegar.

Downingstairs

Março 27, 2008

Upstairs

Março 27, 2008

Oh Nikita

Março 25, 2008

It’s a queer world.

The dark side of the Force

Março 25, 2008

Tapeçarias sauditas.

Gordon, King of Scots

Março 25, 2008

There is a real risk that one day people wake up and find that the benefits of the Union – which they had taken for granted for so long – had disappeared.

O nono mandamento

Março 25, 2008

O meu amigo PPM continua a achar que estes casos são sobre sexo. Na verdade, são sobre o poder. O poder político, mais concretamente. O crime do mayor de Detroit não foi o de ter sido adúltero. Foi o de ter mentido em tribunal. E terá mentido em tribunal porque dois polícias o acusaram de ser despedidos enquanto investigavam o seu presumível uso das forças de segurança públicas para encobrir o affaire. Creio que se chame a isto abuso de poder.

Mudar de vida

Março 23, 2008

(Publicado no jornal Meia Hora, 20/3/2008)

A pior maneira de olhar para a crise do PSD é pela perspectiva do “caciquismo”. Como se, de repente, o PSD se tivesse transformado numa enorme coutada de caciques, onde outrora reinava sabe-se lá que impoluta elite exclusivamente dedicada ao bem público. Não estamos aqui entre virgens imaculadas e, por isso, podemos falar claro: o caciquismo faz parte da vida de qualquer partido. Os partidos não são organizações de cruzados querendo impor à sociedade a pureza ideológica dos seus grandes princípios. Eles são também organizações de interesses, mais ou menos declarados, mais ou menos legítimos e mais ou menos benignos. Os caciques são mesmo essenciais ao funcionamento dos partidos: sem eles, a massa crítica de votos para ganhar eleições poderia nunca se formar. Todos os partidos os têm: o PS, o CDS, o PCP e mesmo aqueles irritantes puros do “Bloco” (um dos quais até se encontra a braços com a justiça em Salvaterra de Magos). Todos os países os têm: da América à Itália, passando pela França ou a Suécia.

O problema do PSD é a falta de uma ideia, de um plano, de um projecto (o que se lhe quiser chamar) eficaz para tomar o poder e exercê-lo de forma alternativa ao corrente governo. As redes de interesses a que se dá o nome de caciquismo são os partidos reduzidos à sua estrita dimensão funcional, uma espécie de esqueleto sem carne ideológica. É natural que essas redes não tenham aquela ideia ou plano. Mas alguém viu algum da parte daqueles membros do partido que o acusam de estar devolvido aos caciques? Dão-se alvíssaras. Será talvez altura de começar a suspeitar que não têm mesmo nenhum e que entre si e os “caciques” afinal não há qualquer diferença neste aspecto.

Perante o divórcio da “elite” com as “bases”, há quem comece já a sugerir o aparecimento de um novo partido da direita “respeitável” (Vasco Pulido Valente, por exemplo). Só que a direita “respeitável” sem as bases não é ninguém (e as bases sem os “respeitáveis” também não). O segredo do PSD sempre foi até agora o de ser um partido genuinamente popular enquadrado por uma elite social, económica e política que lhe conferia orientação. Os dois têm de encontrar maneira de voltar a entender-se. Ou então começar a pensar em mudar de vida.

Trata dessas virilhas

Março 19, 2008

Bem, maradona, grande lençol…

Só duas coisinhas:

1 – Eu não disse que o homem se devia demitir. Disse que alguns dos seus actos privados se tinham tornado relevantes para a sua avaliação pública. Ou não é relevante que um político cometa o crime que ele próprio persegue furiosamente enquanto político (como era o caso) e que isso deva servir para a avaliação do seu desempenho público? E disse que ele era politicamente inconsistente, uma vez que tinha perseguido outros por cometerem o mesmo crime que agora ele próprio cometeu. Quanto mais não fosse, deveria perseguir-se a si próprio. Se depois ele se deve demitir ou não é outra coisa, embora me pareça difícil que tivesse condições para continuar.

2 – Ninguém o demitiu ou “purgou” (nas tuas palavras um bocadito estalinistas). Foi ele que se demitiu.

Parece-me que não percebeste muito bem o que eu disse. Talvez seja mesmo melhor ires ver o Trio de Ataque.

O sexo e a cidade

Março 14, 2008

 

Mete a América, a esquerda e sexo. Só podia dar disparate. Sucedem-se as interpretações acerca do trágico destino de Eliot Spitzer, até ontem Governador de Nova Iorque. Para além do freudiano acto falhado do Público, ao colocar Eliot Spitzer na direita republicana e hipócrita (ele que é um dos políticos mais à esquerda no Partido Democrático), os argumentos andam em torno da irrelevância da “vida privada” para a “vida pública”.

Era bom que o mundo fosse assim simplezinho para aplicarmos a nossa piscadela de olho liberal, sobretudo quando se trata de costumes. Eliot Spitzer construiu a sua carreira (enquanto Procurador-Geral do Estado de Nova Iorque) denunciando a imoralidade de Wall Street e o crime organizado da cidade. Neste aspecto, destacou-se por combater redes de prostituição, cujas ligações ao crime organizado e à lavagem de dinheiro tentou demonstrar.

Um político que constrói a sua reputação denunciando a imoralidade do dinheiro de Wall Street e depois gasta numa noite aproximadamente 2.000 Euros com uma prostituta parece politicamente inconsistente. E um político que constrói a sua reputação combatendo redes de prostituição, sobretudo por causa das suas ligações ao crime organizado, e depois as usa por sistema também parece politicamente inconsistente. Nada disto tem que ver com a vida privada. Ou só tem na medida em que certos aspectos da vida privada de Spitzer se tornaram pública e politicamente relevantes.