Archive for Março, 2009

Esquerda, volver

Março 27, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 26/3/2009)

Como publicação sempre preocupada com estas coisas, o jornal Público trazia no outro dia uma extensa análise sobre a viragem do mundo ocidental à esquerda. Dias antes, um colunista do mesmo jornal, José Vítor Malheiros, demolia a direita por discutir com uma esquerda que já não existe: uma esquerda irresponsável, assente em paradigmas antigos, de que as experiências históricas do socialismo real e outras seriam o exemplo. A esquerda já não seria nada disso.

Quer-me parecer que estão os dois certos: o mundo vai virar à esquerda para já (não eternamente, pois a vida dá muitas voltas) e a esquerda está diferente. Mas por outro lado estão errados: pelos antigos padrões da esquerda, na verdade o mundo está a virar para uma esquerda à direita da antiga esquerda, e a esquerda mesmo quando muda também é sempre mais ou menos a mesma. Não sou um homem velho, mas era já adulto quando muita gente (incluindo pessoas hoje em dia no governo) defendiam convictamente (diria mesmo histericamente) a União Soviética, a China comunista, a Albânia comunista, a Roménia comunista, a Coreia do Norte, a Líbia de Khadaffi ou até o Zimbabué como melhores exemplos de soluções políticas do que as nossas democracias liberais. Note-se que a maior parte deles não deixou de acreditar nisso por exame intelectual mas porque essas experiências ruíram nos anos 80 e 90. Ora um dos aspectos mais interessantes da recente crise é como, apesar das ferozes críticas ao “capitalismo”, a esquerda não aponta nenhuma substituição “sistémica” (como agora se diz). Apenas agita o espectro da decadência do “neoliberalismo” (que um dia bem gostaria de saber o que é exactamente), propõe “mais Estado” (ainda mais, caramba: como se não bastasse a quase metade da riqueza que vai em impostos, mais os chips nas matrículas e o “serviço público” de televisão fazendo propaganda do Governo) e a “reforma do sistema”.

O mais recente culto místico da esquerda é Obama. Ela acha que ele vai transformar os EUA numa social-democracia. Bem: os EUA já são uma social-democracia desde o New Deal. De qualquer forma, mil vezes Obama do que Brejnev, Enver Hoxha, Khadaffi ou Mugabe. De facto, a esquerda já não é a mesma e até já chegou a esta “grande casa ocidental”. Mas como sempre na esquerda, recusa admitir que esteve errada e continua a achar que os outros são maldosas criaturas movidas por motivos sinistros. A esquerda já não é a mesma. Mas é sempre a mesma.

Menu eleitoral

Março 24, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 19/3/2009)

Está a chegar a época eleitoral, com o prato forte em Outubro, quando se votar para parlamento e governo. Embora faltem sete meses, já é possível estabelecer cenários aproximados. Tal como as coisas se apresentam, o PS parece estar a caminho de uma vitória. A grande dúvida está em saber se com maioria absoluta ou não. Neste último caso, colocam-se quatro hipóteses:

1. Governo com base em maioria relativa, fazendo acordos episódicos para passar orçamentos e outra legislação. Em ambiente de crise, não é fiável. A qualquer altura, o apoio crucial pode faltar e pode até gerar-se uma coligação negativa para derrubar o governo.

2. Governo (de coligação ou acordo parlamentar) com o BE. O BE também não é fiável. Há por lá umas secções “realistas”, dispostas a arcar com as responsabilidades do poder. Mas nunca se sabe quando sucumbem às tendências “de protesto”, que são o código genético do BE. O risco de inviabilização é alto.

3. Governo (de coligação ou acordo parlamentar) com o CDS. Admitamos que o CDS até possa ser fiável. Mas o que acontecerá no dia em que o PS, para satisfazer a clientela mais à esquerda, decidir lançar a causa dos “casamentos gay” ou da eutanásia? O CDS não pode, sem risco de trair em definitivo o código genético, continuar a viabilizar tal governo. O risco também é grande.

4. Bloco Central. É a mais segura das soluções. Basta invocar uma situação de “emergência nacional” – o que não será difícil, dada a crise. Toda a gente reage mal a este género de “situação pastosa”. Mas lembre-se que, na crise de início dos anos 80, foi o Bloco Central que fez a política dura do reequilíbrio das contas. Com os dois partidos cometidos a funções de “salvação nacional”, o resto passa efectivamente por barulho de protesto. O problema está, claro, na apropriada distribuição de poderes e sinecuras, e no aparecimento de uma qualquer janela de oportunidade para um dos partidos ir sozinho.

Note-se que nada de especial muda se admitirmos que o PSD ganha. Na verdade, até com menos hipóteses, pois o cenário da maioria absoluta quase não vale a pena colocar.

Nós bem sabemos que o Presidente da República não é pessoa para se intrometer muito nestas coisas. Até porque seria a melhor maneira de perder o capital de credibilidade de que ainda dispõe. Mas eis aqui um conjunto de cenários que, independentemente da sua vontade, tornam quase inevitável mais acção. Mas o que pode ele fazer perante as situações acima? Ou há mais soluções a tirar da cartola?

Outras bagatelas

Março 17, 2009

O MacGuffin pede que transcreva a quinta frase da página 161 do livro que tenha mais à mão. Cá vai:

“J’appris avec un soulagement à la mesure des inquiétudes entretenues à ce sujet qu’il n’avait rien d’anormal et l’infirmière me mit enfin dans les bras le minuscule petit bout que j’avais tant désiré.” Françoise Hardy, Le Désespoir des Singes …et Autres Bagatelles, Paris, Robert Laffont, 2008.

Je passe la bolle ao maradona, aos Paulos (Mascarenhas e Tunhas), ao André e ao Miguel Morgado.

Rêve doré

Março 13, 2009

O princípio de uma longa viagem

Março 13, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 12/3/2009)

Na presidência Obama, já passámos a fase das expectativas e medidas simbólicas para chegarmos às políticas concretas. Não se trata já de projectar anseios e dúvidas num quadro limpo. Nesse sentido, espanta que o plano orçamental da administração tenha merecido tão pouca consideração. Ainda falta a aprovação do Congresso, mas o dito plano entra verdadeiramente por território inexplorado. A ser passado sem alterações, teremos em 2009 um aumento de 5% (!) da despesa pública federal enquanto percentagem do PIB e um défice orçamental de 14%(!!), também enquanto percentagem do PIB. É verdade que estes valores se explicam em parte pela quebra da actividade económica, mas 14% do PIB é um défice de estilo latino-americano ou então típico de um país em guerra – e efectivamente a última vez que atingiu esta dimensão foi durante a II Guerra Mundial.

A desculpa do legado de Bush tem servido para muita coisa, mas já não colhe aqui. A expansão da despesa não tem que ver com aquilo que ele deixou, mas com planos próprios, nomeadamente de expansão dos sistemas públicos de saúde e educação, para além dos gastos em infraestruturas e salvamento do sistema financeiro. E tem também que ver com a incapacidade de cobrar impostos na proporção necessária para financiar os programas. Prepara-se, portanto, uma verdadeira explosão da dívida pública americana. O orçamento prevê uma redução do défice para cerca de 3% em 2013, mas para isso assenta numa previsão da expansão da economia a partir de 2010 à volta de 4% anuais, que não se está bem a ver actualmente como vai ser obtida. No mínimo, trata-se de optimismo perigoso.

Demonstrando talvez falta de crença nas suas próprias previsões, Obama mandou a Secretária de Estado Clinton fazer a sua primeira visita à Ásia, àqueles países que ainda têm bastante poupança, para lhes pedir que continuem a comprar dívida pública americana. Particularmente clamoroso foi o seu comportamento na China, onde ao mesmo tempo que incitava o governo local a fazer o jogo anunciava que os EUA iam fechar os olhos ao problema dos direitos humanos do horrível regime local. Depois de anos a ouvirmos sobre os erros de Bush, deixando endividar os americanos para serem financiados pelos chineses, agora não ouvimos nada, mesmo que seja a continuação da mesma política, em que a dívida pública tomou a vez da dívida privada. A presidência Obama iniciou uma longa viagem. E não sabemos onde nos vai levar.

Et moi?

Março 11, 2009

Missing Bush yet?

Março 9, 2009

Os europeus um bocadinho mais atentos deveriam começar a perguntar-se se valeu a pena tanta Obamamania. O Presidente Obama vem claramente demonstrando que não tenciona contar com os europeus para nada de muito especial. Aqui há umas semanas, enquanto a Secretária de Estado realizava uma visita verdadeiramente importante à Ásia, o vice-Presidente vinha à Europa. Como sempre acontece com os parolos, os europeus acharam que estavam a ser distinguidos com uma visita máxima. A verdade é que o vice-Presidente não tem importância nenhuma para as relações externas. A Secretária de Estado lá veio depois, mas sobretudo para apaparicar a Rússia com o seu famoso botão “reset”. Entretanto, Brown foi humilhado em Washington e Obama pensa, eventualmente, em vir à Europa lá para o Verão – mas sobretudo como complemento a uma visita ao Médio Oriente.

Por comparação com a administração Obama, a administração Bush foi de um eurofilismo que agora até parece comovente e mesmo um bocadinho antiquado. Eu lembro-me dos esforços (bem sucedidos) para construir a coligação para o Afeganistão. E dos esforços (mal sucedidos) para construir a coligação do Iraque. Seja como for, Rumsfeld passava a vida cá, negociando com parcerios europeus. Lembro-me mesmo de o ver insultado em público por um histérico Joschka Fischer, não um cidadão qualquer, mas salvo erro então ministro dos Negócios Estrangeiros.

Com o seu anti-bushismo e pró-obamismo incondicionais, os europeus fizeram uma caricatura de si próprios que ainda lhes pode sair cara se não começarem já a falar um pouco mais grosso para o outro lado do mar.

Le monde entier est un cactus

Março 6, 2009

A tribo

Março 6, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 5/3/2009)

Tem-se por aí dito que o congresso do PS foi pobre. Na verdade foi tão pobre quanto o panorama político ultimamente tem sido. Bem podemos lamentar a ausência de ideias, para além de um fetichismo de “esquerda” sem tradução programática digna de nota. Bem podemos lamentar o ambiente histérico que rodeou todo o evento (as “campanhas negras”, a “democracia decente”, os “parasitas”…). Mas a verdade é que o congresso se concentrou naquilo em que precisava concentrar-se.

Os problemas do PS são de quem deve apenas de ter receio de si próprio. À direita, por enquanto não há nada. Os únicos obstáculos que se podem antecipar no caminho para a maioria absoluta são o célebre caso do shopping de Alcochete e os partidos à sua esquerda. Quanto a estes, só valem o que valem nas sondagens justamente porque a vitória do PS está garantida. Eis o que permite devaneios de genuinidade. Caso o “fascismo” ou a “extrema-direita” (isto é, o PSD e o CDS) estivessem para voltar, já não haveria tantos trânsfugas. Não é de crer que daqui resulte a recuperação de votos perdidos. Mas, muito francamente, que outra coisa fazer? Quanto ao shopping, era preciso mostrar que o líder não se encontra afectado e que, portanto, continua a comandar a tribo. Os jornalistas deram em criticar muito a linha oficial da “campanha negra”. Mas é a única possível, enquanto a investigação judicial não chegar a uma qualquer conclusão – e, se bem a conhecemos, não o vai fazer em tempo útil. Até porque, havendo ou não uma campanha generalizada (e não há), alguma razão o líder tem: as suspeitas apenas em parte resultam de uma investigação; na sua maior parte, resultam de notícias de jornal baseadas em “fugas de informação” que, por definição, não estão contextualizadas. Quem garante que não haja jornalistas e jornais (não todos, apenas alguns) com agenda política interessados na derrota do PS?

A única maneira de sairmos desta tristeza seria o PSD renascer. Mas há muito que o PSD não sabe fazer mais nada senão esperar pela derrota alheia. Para isso até conta com o efeito destrutivo do caso do shopping. Só que a sucessão de escandaleiras a que se tem resumido recentemente a política portuguesa tornou a opinião pública cínica: a serem verdade todos os escândalos, os nossos políticos seriam traficantes de armas, traficantes de droga, falsários, pedófilos, pervertidos sexuais e corruptos. Passado um certo limiar de choque, já nada nos surpreende. E ou acreditamos em tudo ou não acreditamos em nada.

Le désespoir des singes

Março 3, 2009