Archive for Agosto, 2009

É sempre em frente

Agosto 26, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 16/7/2009)

Toda a gente conhece o famoso dito de Churchill segundo o qual a democracia é o pior de todos os sistemas excepto todos os outros. A frase é tão bem achada que poucas pessoas, pensando bem, não estarão de acordo com ela. Mas talvez a ideia não se estenda a todos os aspectos da vida democrática. Aos cartazes políticos, por exemplo. Quando comparamos os nossos cartazes com os de regimes como a Alemanha nazi, a URSS ou até o “nosso” Estado Novo, tantas vezes da autoria de alguns dos melhores artistas gráficos da história, constatamos a nossa pouca sorte estética.

Aqui por onde estou passando férias, a campanha para as autárquicas parece já estar em curso. Ruas e estradas estão inundadas de cartazes com fotografias de indivíduos que mais parecem apropriadas a vendedores da mediadora imobiliária Remax. A imaginação dos slogans é estonteante. Um candidato afirma que Santo Estêvão vai “P’rá frente”. Exactamente como é que esta encantadora aldeia de 300 habitantes (talvez exagere), com dois cafés, uma mercearia, uma caixa agrícola e uma igreja (e respectivo adro) vai “P’rá frente” é algo que se ignora. Talvez ir “P’rá Frente” signifique construir o enésimo condomínio de férias “entre a serra e o mar”. Caso em que mais valia que fosse “P’ra Trás”. Logo abaixo, outro candidato promete que “Tavira segue em Frente”. Se Tavira seguir em frente na direcção da qual também Santo Estêvão de lá vem, arriscamo-nos a uma colisão, sendo certamente a melhor maneira de destruir tanto Tavira quanto Santo Estêvão (já seriamente ameaçados com as inúmeras ideias de os levar para a “frente”). Claro que nenhum destes candidatos está sozinho, uma vez que partilham o espaço público com o grande candidato nacional José Sócrates, o qual, também ele diz que quer “Avançar Portugal”. Talvez seja isto a experiência do movimento perpétuo.

A alguns quilómetros de distância, Nuno Marques, qual Professor Karamba, afirma ter “Soluções de verdade para Lagos”. E noutro ponto, Macário Correia garante que quer “refazer uma capital”. Mas o adversário directo, o candidato José Apolinário, vai mais longe, ao afirmar, numa arrancada retórica notável, que “Faro é Faro”. Repare-se na depuração do estilo.

 Tanta preocupação com a “qualidade da nossa democracia” e ninguém se preocupa com a qualidade da sua propaganda. Mas continuaremos a querer mudar este estado de coisas, já que “nunca baixamos os braços”, mesmo que isso comece a incomodar as outras pessoas. É altura de desejar boas férias.

Anúncios

Tirar o Bush da cartola

Agosto 25, 2009

De repente, o assunto já não são as dificuldades de reforma do sistema de saúde, mas outra vez Bush (parece que custa a morrer):

The administration is in a deep health care debate, a national debate, and every hour that passes, support for his plans are diminishing and his own popularity is tanking.

All of a sudden, this issue explodes on a Monday. Friday, the administration met at 5:00 after hours, releases a $2 trillion error in estimates of deficits, and on bright Monday, you get this re-litigation of the Bush administration all of a sudden exploding upon us.

Look, I’m not a conspiracy theorist, but I’m not a child. It’s not a coincidence.


And secondly, you get the president pretending he is against all this and that it is Holder, the attorney general whose initiative all of this is about, as if Holder isn’t an employee and under the direction of the administration.

So, the president is the good cop who is magnanimous, who really wants to look ahead as the messianic visionary he is, and Holder is the bad guy.

Por enquanto ainda vai dando para tirar o Bush da cartola. Veremos se resulta.

A história do mandato de Obama

Agosto 24, 2009

Presumo que por cá ainda persista o encantamento, mas na terra onde ele é presidente a história do mandato de Obama está resumida no gráfico acima. Previsivelmente, a esquerda mais histérica (e.g. Paul Krugman nos EUA) já começou a explicar que é tudo uma conspiração plutocrática: as seguradoras estariam a comprar senadores democratas. Resta explicar por que razão também a opinião pública em geral se vem desencantando com o presidente. Depois de um pequeno interregno, talvez esteja para mais próximo do que se julgaria o regresso do “americano estúpido” (como se pode ver aqui, já começou mesmo a voltar). Não creio que tudo se resuma a uma hostilidade ao plano de saúde. Julgo que se deve sobretudo a uma hostilidade ao endividamento lunático em que as políticas de Obama já colocaram os EUA e para o qual o plano de saúde seria mais um contributo. Para além de que, ao contrário de um mito persistente na Europa e entre alguma esquerda americana, o sistema de saúde americano não é assim tão mau que precise de uma revolução completa (certamente precisará de melhoramentos) e os amercianos não estão assim tão descontentes com ele: não é o último argumento, mas eu já fui duas vezes atendido em urgências nos EUA (uma num hospital universitário, outra num público); nunca fiquei à porta, sempre fui bem tratado e nunca paguei o equivalente local às taxas moderadoras (porque os recibos nunca cá chegaram…).

Gostar de Obama

Agosto 24, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 9/7/2009)

Muita gente me pergunta: porque não gostas do Obama? Presumo que os artigos críticos que por aqui vou escrevendo choquem, sobretudo pelo carácter solitário do exercício. Respondo que não gosto nem desgosto. Simplesmente acho errada a abordagem verbal “obamística” no que toca à maior parte dos problemas da América e do mundo. Essa abordagem pode ser resumida na expressão usada por Joe Biden a propósito das relações com a Rússia: carregar no botão “reset”, ou seja, começar tudo de novo. Eis o problema: não é possível começar tudo de novo. A América, o mundo, a presença da América no mundo têm um lastro histórico que não se mudam estalando os dedos. E todas elas têm muito de bom e de mau, e bom e mau vão continuar a existir com e para além de Obama.

A grande vaga de popularidade de Obama dependeu de dois elementos principais. Por um lado, a vontade (necessidade?) de grande parte da esquerda em reconciliar-se com a América. Ou melhor, a vontade em encontrar o seu lugar no seio das democracias liberais ocidentais (de que a América é o actual exemplo supremo), depois da perda de esperança em diversos modelos alternativos. Como a esquerda sempre gosta de fazer, passou a apresentar-se como proprietária da democracia liberal, agora transformada na sua “utopia”. Isto é, depois de décadas a criticá-la, adoptou-a como coqueluche e propriedade privada. O outro elemento foi uma direita ansiosa por reciclar-se do fracasso de imagem da Presidência de Bush. Note-se que o fracasso foi sobretudo de imagem, não necessariamente de políticas.

Ora, a verdade sobre a política reset é que não existe ou então, onde foi tentada, não tem tido grandes resultados. Não existe na política económica, onde a tendência para resolver a crise despejando dinheiro continua. Se alguma novidade há é a elevação desta técnica a níveis estratosféricos. Não existe no Iraque, onde Obama segue o calendário de Bush. Não existe no Afeganistão, onde Obama adoptou como sua esta guerra de Bush. Não existe na política de detenção de suspeitos de terrorismo (mais conhecida por “Guantánamo”), onde tudo continua essencialmente na mesma (apesar de uns toques cosméticos). Foi tentada no Irão, com um princípio de reconciliação, mas não correu bem: tudo acabou num imbróglio à conta da rebelião contra o regime. Está a ser tentada na Palestina (embora na verdade recuperando políticas anteriores: Bush pai, Clinton…), ignorando-se o resultado. Quase nada começou de novo. Quase tudo acabará na mesma?

Que fazer com os bancos?

Agosto 24, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 2/7/2009)

Foi certamente um espectáculo chocante, quando a actual crise financeira começou, ver banqueiros habitualmente tão arrogantes na denúncia de quem pede ajuda ao Estado por isto e por aquilo, implorarem como se fossem crianças que agora o Estado viesse em sua salvação. Todos aqueles que durante anos, mesmo em circunstâncias difíceis e sem as mesmas remunerações, defenderam que os mecanismos de mercado eram a melhor maneira de organizar a economia, sentiram-se defraudados. Afinal, descobriram que aquele sector que nos últimos anos se apresentava como o epítome do mercado não passava de uma fraude enquanto actividade privada. O contrato implícito nas nossas sociedades é que empresários e gestores têm uma remuneração mais elevada porque correm mais riscos. Se corre tudo bem, corre tudo bem. Se corre mal, segue-se a falência. O que eles demonstraram é que (ao contrário de outras actividades) apenas queriam cumprir a parte boa do contrato.

E os governos corresponderam, com enormes programas públicos. Implicitamente estatuiu-se que muitos bancos eram “demasiado grandes para falir” e que o dinheiro dos contribuintes presentes e futuros (através da dívida pública) servia para os suportar. Nunca se assistiu nos últimos 70 anos a semelhante progresso da socialização da economia. Os bancos criaram a crise e, depois, para se salvarem, reduziram de forma astronómica a dimensão da economia de mercado. Por isso, não podem ser consideradas instituições que promovem a liberdade económica. Isto traz um problema evidente: se não estão dispostos a falir então é porque são já instituições públicas sem o nome e estão fora das regras dos mercados. O que traz ainda um outro problema (ou melhor, um dilema) político: ou é definitivamente assumido que estes bancos são públicos, acabando a comédia dos últimos anos, ou eles são reformados de forma a poderem voltar a ser vistos como agentes privados.

O que esteve na origem da actual crise foi a expansão do crédito a partir do nada. Ou quase nada: uma base monetária e de capital cada vez menor. Se não queremos transformar os bancos em apêndices do Estado, então não os podemos deixar seguir um modelo de negócio que não os responsabiliza, cria instabilidade e põe em perigo a economia de mercado. Para isso só há uma solução: impor-lhes rácios de capital que efectivamente protejam os clientes e a economia, e impedi-los de se envolverem em programas de crescimento do crédito que a prazo deixam a sociedade no seu todo falida.

Rumo à derrota?

Agosto 24, 2009

(Publicado no jornal Meia Hora, 25/6/2009)

Tem sido o grande motivo de conversa dos últimos dias: o novo “estilo” do primeiro-ministro, inaugurado na já célebre entrevista a Ana Lourenço. Como consequência evidente da derrota nas Eleições Europeias, o primeiro-ministro trocou o estilo histérico e acossado do “animal feroz”, típico até agora, por outro mais manso, delicodoce e sofrido. Toda a gente notou a mudança, mas levou-o sobretudo para a galhofa. Uma alteração tão brusca e tão estudada deu a muita gente vontade de rir.

No entanto, o fenómeno talvez mereça outro tipo de atenção. Como tentei dizer aqui há uma semana (e não fui o único), o PS foi colocado, depois da derrota das Europeias, numa terra de ninguém: não pode virar à esquerda sem alienar eleitorado que preferirá o PSD; não pode virar à direita sem alienar eleitorado que preferirá o BE e a CDU. Isto significa que ao PS só resta um caminho: “manter o rumo”, como o próprio primeiro-ministro lhe chamou. Claro que “manter o rumo” coloca um problema: o “rumo” foi derrotado nas Europeias; simplesmente mantê-lo significaria com forte dose de probabilidade perder as Legislativas. Restava portanto “manter o rumo”, mas com uma nova embalagem. Sendo que há algo de verdadeiro na recém-adquirida humildade: o PS ouviu mesmo a voz do eleitorado e quer mesmo adequar-se ao seu estado de espírito actual.

“Manter o rumo” faz ainda sentido porque o comportamento do PSD também não ajuda. De facto, praticamente sem fazer nada o PSD conseguiu ganhar umas eleições. O que até cria dificuldades ao próprio PSD: se não fizeram nada até agora e ganharam, então o que fazer? A sua atitude zen tem uma vantagem, mas só temporária: se não se define, também não deixa o PS definir-se. E para o PS, enquanto não for possível saber onde atacar o PSD, o melhor é mesmo “manter o rumo”, embora com uma dose acrescida de simpatia. Acalmam-se as coisas por agora e, depois, quando a pré-campanha e a campanha começarem, a agressividade pode regressar.

Para além disso, “manter o rumo” pode revelar-se ainda suficiente para ganhar (embora muito provavelmente sem maioria absoluta). Tudo dependerá da capacidade do PSD para se afirmar como alternativa credível. Beneficiar do descontentamento com o PS já foi bom e deu para ganhar as Europeias. Agora será preciso um pouco mais para ter êxito nas Legislativas. E não sei se basta insistir muito na questão do TGV, mesmo quando apoiada no parecer de um conjunto de importantes economistas “de vários quadrantes políticos”.