Archive for Novembro, 2010

O fim da União Europeia?

Novembro 28, 2010

(Publicado no Diário Económico, 27/11/2010)

Há cerca de duas semanas, a chanceler Angela Merkel afirmou que “se o euro falhar, falha a União Europeia”, no que foi secundada alguns dias depois pelo Presidente de todos os europeus, Herman Van Rompuy, de acordo com o qual “se não sobrevivermos com o euro, não sobreviveremos como União Europeia”. Quem sou eu para argumentar com tais sumidades continentais, mas pergunto-me se não será exactamente ao contrário: o euro é que ameaça a União Europeia.

Talvez valha a pena começar por lembrar o óbvio: a UE é um arranjo institucional com cerca de cinquenta anos, mas só dez deles foram vividos em união monetária; e fora da dita estão países tão importantes como o Reino Unido, a Suécia ou a Dinamarca. Foi sem o euro que a UE se transformou no sucesso que (ainda) hoje é, promovendo a cooperação onde antes havia guerra. Até à união monetária, a UE começou por ser simplesmente uma área de livre-câmbio e uma união aduaneira (ou seja, com protecção exterior idêntica para todos os países-membros), tendo-se transformado depois (há cerca de vinte anos) num mercado comum (permitindo a livre circulação do capital e do trabalho). Tudo isto funcionou em benefício dos países participantes, que atravessaram uma longa prosperidade. Era, para além disso, um arranjo suficientemente flexível para que, por alargamentos sucessivos, a UE passasse dos seis membros originais para os actuais vinte e sete, tão diferentes.

Precisamente, a união monetária introduziu tensões onde elas não existiam (como parece anódino hoje o “quero o meu dinheiro de volta”, de Margaret Thatcher). Em sua consequência directa, e ficando cada país entregue ao respectivo nível de produtividade, alguns tornaram-se excedentários e outros deficitários nas trocas comerciais e nos pagamentos entre si. As duas únicas soluções rápidas para este desequilíbrio seriam o abandono da moeda única pelos deficitários ou então a assunção das suas dívidas pelos excedentários. Ninguém gosta da primeira solução, embora em nome do realismo fosse bom começar a pensar na sua eventualidade. Quanto à segunda, parece que os países excedentários não a apreciam. É verdade que o Presidente Van Rompuy afirmou há pouco tempo que “o Estado-nação homogéneo já passou à História”. No entanto, o Estado-nação homogéneo alemão (o único capaz de pagar esta factura) tem mostrado grande relutância em desaparecer – e sobretudo em pagar. Provavelmente precisará que lhe expliquem porque será um bom investimento enterrar fortunas em estados-nação homogéneos que, dentro do euro, tão cedo não sairão do buraco em que se enfiaram. Sem querer contrariar ninguém, esse sim talvez seja o caminho mais rápido para o fim da União Europeia.

O triunfo da vontade?

Novembro 26, 2010

(Publicado no jornal Metro, 25/11/2010)

Nestes tempos desesperados para o país, o grande argumento que vai restando é o da “vontade”, da “coragem” (para “vencer desafios”), do “ir à luta” e “não dar tréguas” (não se sabe bem a quê nem a quem). Já há muito que vivemos nisto: José Sócrates foi eleito pela primeira vez explicando que o crescimento económico era apenas uma questão de “confiança”. Lembra aquelas tribos a quem tudo o que acontece resulta de fenómenos sobrenaturais. Se alguém introduz uma nota de realismo passa logo à categoria inclassificável de “pessimista” (se não mesmo, supremo horror, de “bota-abaixista”), para não dizer “inimigo” (sabe-se lá do quê: da pátria, do euro, do Estado social, da faiança das Caldas…). É o que resulta a quem se lembre de dizer, por exemplo, que 40 anos de investimento em Educação e políticas sociais não resolveram o problema da qualificação e da pobreza em Portugal; que um quarto de século de ideologia e prática das “reformas estruturais” não evitaram a pior década de desenvolvimento económico do país; que a participação no “projecto europeu” (em todos os seus domínios, como a moeda única, por exemplo) não foi suficiente para evitar essa década perdida… Persistir apenas na “vontade”, na “coragem”, no “ir à luta” e em “não dar tréguas” é tomar sucessivamente balanço e atirar-se contra a mesma parede uma e outra vez. Como aqueles bonequinhos dos jogos de computador que correm muito contra o mesmo obstáculo, quando o que é necessário é parar, pensar um bocado, encontrar o caminho escondido e chegar ao nível seguinte.

Estamos a rapar o fundo ao tacho de décadas de uma ideologia de transformação do país que entrou num beco sem saída. E acabámos num mau livro de auto-ajuda e motivação pessoal. É verdade que se trata da linguagem da época, mas talvez fosse altura de sair da adolescência e perceber que as escolhas que tomámos nos conduziram a um ponto em que nenhuma solução é boa, podendo nós apenas escolher de entre as menos más. E quanto mais tarde pior.

A minha directora

Novembro 25, 2010

Não me despediu.

Estranha forma de vida

Novembro 22, 2010

Any better ideas out there?

Uma união para mil anos

Novembro 21, 2010

Nós não. O problema é os pretos: The Republic of Ireland hasn’t stood a chance in recent weeks. The eurozone big boys have decided that Ireland’s “insolvency” is now jeopardizing the ability of other bigger countries namely Portugal, Spain and (whisper it) Italy to keep borrowing. So a misguided European bail-out is now being forced upon Ireland.

1,5%

Novembro 19, 2010

(Publicado no jornal Metro, 18/11/2010)

Houve grande entusiasmo com a taxa de crescimento homóloga de 1,5% da economia para o terceiro trimestre. Julgo que serei logo arrumado na gaveta dos “pessimistas”, “bota-abaixistas”, “tremendistas” e “cassandras” se disser que não significa nada. Não significa nada por várias razões. Vale a pena começar por perceber que se trata de uma taxa homóloga (ou seja, estabelece o crescimento em relação ao mesmo trimestre do ano passado). Em termos encadeados, ou seja, em comparação com o trimestre anterior, a taxa foi apenas de 0,4%. Mas enfim, admitamos que, no estado em que estamos, qualquer coisinha alegra. Mau é que foi dos piores da Europa, abaixo da média da UE (2,1%) e da Zona Euro (1,9%).

Mas grande parte do entusiasmo deveu-se ao facto de terem sido as exportações “a puxar” pela economia, com um crescimento de 15%. Só que as nossas exportações andam há muito tempo, com excepção de um ou outro ano, a crescer bastante. No entanto, ao mesmo tempo, vamos perdendo quota de mercado. Isto é, as exportações crescem e, simultaneamente, vão perdendo relevância internacional. Como se explica o paradoxo? Dito de forma simples: porque as exportações dos outros países crescem ainda mais. As exportações portuguesas são simplesmente puxadas pelo crescimento geral do comércio no seio da Zona Euro, porque um dos grandes efeitos da Zona Euro tem sido, precisamente, a criação de comércio entre os seus membros. Só que nós temos sido dos que pior têm aproveitado o fenómeno. Na Áustria, por exemplo, as exportações passaram, desde o princípio do século, de cerca de 30% do PIB para cerca de 60%; em Portugal, passaram de 30% para 33%. Coisa que, de resto, se manifesta no reverso das exportações: o crescimento ainda maior das importações, gerando o tal desequilíbrio externo que nos endivida.

No estado em que estamos teremos sempre a tentação de nos iludirmos. Mas não passámos, num trimestre, de dez anos de anemia económica e divergência para outra coisa. Ainda muito terá de acontecer.

Um pesadelo europeu

Novembro 14, 2010

(Publicado no Diário Económico, 13/11/2010)

A Alemanha terá dado, há duas semanas, o golpe final no mais recente grande sonho europeu. Ao propor, na cimeira de chefes de Estado de 28 de Outubro, em Bruxelas, a criação de um mecanismo europeu de salvação de estados endividados, mostrou os limites da solidariedade europeia. A Alemanha começou por recusar a perpetuação do actual mecanismo de estabilização do euro, para lá de 2013. Em alternativa, propôs a criação de um fundo permanente, mas a que juntou uma terrível condição: a concessão de empréstimos de salvação teria de vir acompanhada pelo reescalonamento da dívida do país beneficiado. Ou seja, o fundo apenas passaria à realidade se associado a um mecanismo de incumprimento do estado receptor do empréstimo. Isto significa que a Alemanha não está disposta a assegurar salvamentos incondicionais, ou mesmo salvamentos meramente acompanhados de austeridade. Para a Alemanha, os países beneficiados, mais os seus credores, têm de assumir a sua falência.

A mudança é crucial, porque mostra que a Alemanha não quer transformar o seu Orçamento do Estado no orçamento federal europeu, compensando com transferências as regiões em crise. Mostra também que não está disposta a abdicar do seu bem sucedido modelo económico nacional, produtivo e exportador, para o substituir por uma grande economia europeia ineficiente. A Alemanha está satisfeita por ser o que é, rodeada de países parceiros menos bem sucedidos e seus clientes. Quer continuar a ser o mesmo país e não atrelar a si a tralha das Itálias, Portugais e Bulgárias do continente, transformando-se numa grande Polónia de 500 milhões de habitantes. Claro que estamos apenas perante uma proposta, a ser aprovada pelos restantes países-membros, os quais aliás se mostraram muito desagradados com ela. Mas não deixa de demonstrar que a Alemanha prefere sacrificar o euro a continuar com os salvamentos incondicionais.

Tudo isto tem ainda o condão de tornar transparente a irrelevância da política nacional: um dia depois de acordado o orçamento que iria estabilizar as taxas de juro a pagar pelo Estado português, as taxas continuavam a galopar, e ainda continuam. E isto simplesmente porque esse acordo deixou de ter importância perante a notícia, no mesmo dia, daquelas propostas alemãs.

Estamos a chegar ao fim do lirismo que via na crise o pretexto ideal para a criação das finanças públicas europeias e de um “governo económico europeu”, que funcionariam como prelúdio ao nascimento da grande Nação europeia. Como foi possível imaginar que tal coisa nasceria sem gerar tensões incomportáveis? Por razões parecidas, a Europa esteve na origem de duas guerras mundiais. Há demónios que nunca desaparecem.

Just gimme some truth

Novembro 12, 2010

The luck of the Irish

Novembro 12, 2010

The country is now effectively bust.

Dois anos é muito tempo

Novembro 12, 2010

(Publicado no jornal Metro, 10/11/2010)

Quem não se lembra, há dois anos, da vinda do deus Rá (o sol do meio-dia), incarnado em Barack Obama. Era a salvação da Humanidade, mas também a criação de uma coligação americana para os séculos futuros, constituída por tudo o que é bom (negros, gays, hispânicos, jovens, mulheres, brancos iluminados) e que raiaria sobre o planeta. Vinte e quatro meses depois, a coligação desapareceu e venceu a direita. Na Europa, sucedem-se também vitórias da direita. A presidência Obama parece hoje uma entidade velha e gasta e a nova energia vem do inorgânico Tea Party.

Como sempre acontece com as vitórias populares da direita, o Tea Party vai sendo descrito como uma colecção de lunáticos e ignorantes. Já Thatcher e Reagan, que mudaram para sempre a paisagem política do mundo (sem exagero: contribuíram para a queda da URSS), foram vistos assim; no seu tempo, também Cavaco foi entendido da mesma maneira (o “homem sem biografia”, Soares dixit), e também ele mudou para sempre a nossa democracia. Não é seguro que o Tea Party seja algo do género, mas tem potencial para isso. Ao contrário de uma narrativa cansativa, nós não vivemos no “neoliberalismo”. Vivemos em regimes de Estado-providência (mesmo nos EUA), que temperam a liberdade política e económica com uma forte intervenção estatal. Por todo o lado, estes regimes estão ameaçados, dada a dificuldade em financiá-los. O Tea Party quer ser uma alternativa, com soluções desestatizadas.

A esquerda, que se sente sempre humilhada quando perde eleições, já tratou de explicar que a vitória do Tea Party é a garantia da reeleição de Obama: com tantos maluquinhos no Congresso, toda a gente vai votar nele em 2012. É capaz de ter razão, mas por outro motivo: com um Congresso mais virado à direita, Obama também vai ser obrigado a governar mais à direita, abandonando os seus próprios projectos lunáticos. Talvez Obama se transforme agora no Presidente bipartidário que prometeu ser na campanha e ainda não foi. E assim talvez ganhe mesmo.