Archive for Junho, 2010

Momento Luís Freitas Lobo

Junho 30, 2010

1. Parece que a Espanha é uma maravilha. Viu-se à rasquinha para ganhar 1-0 a Portugal.

2. A Espanha não me convence. Entrou com uma única ideia para este jogo: atacar pelo lado direito da defesa de Portugal, que é o pior. Villa contra Ricardo Costa. Qual o resultado? Evidente: Costa foi comido três vezes e Eduardo teve de nos safar três vezes. Assim que Costa passou a ser apoiado por Pepe e que a Espanha manteve a mesma estratégia, a Espanha nunca mais criou perigo. Em contrapartida, esta foi a altura em que Portugal podia ter marcado por duas vezes.

3. A Espanha salvou-se do colete de forças quando começou a jogar à velha inglesa, logo no princípio da 2ª parte. Chamou Llorente, uma espécie de Peter Crouch espanhol, e começou a mandar centros para área desde muito longe. O golo ia entrando assim. Mesmo que não tenha sido Llorente a marcar, a defesa portuguesa teve de baixar, o que abriu espaço para o Xavi e o Villa fazerem o golo que realmente entrou (do lado direito: lá está). Diz-se que a Espanha joga um futebol maravilhoso. Não vi nada disso ontem.

4. Boas notícias: com Bosingwa, Portugal terá uma das melhores defesas do mundo.

5. Más notícias: faltam jogadores para o meio-campo atacante e para o ataque. Há por aí mais do que os que foram: Carlos Martins, João Moutinho, Nuno Assis, mas não são muitos e não são nenhuns Figo, Rui Costa ou Cristiano. Exceptua-se o Nani.

6. Cristiano ganha certamente o prémio do idiota do Mundial. Remates a 50m, remates a 40m, corridas para nada, certamente à procura de marcar um golo sozinho. Será talvez uma maneira de nos dizer que não quer jogar na selecção. Talvez a selecção lhe devesse fazer a vontade: é como se não estivesse lá. É pior: é como se fosse um adversário.

7. E depois há os mistérios: o mistério Nani; o mistério Deco. O mistério das não convocatórias de Carlos Martins e João Moutinho. E porque não jogou Paulo Ferreira em vez de Ricardo Costa? Mesmo em baixa de forma seria certamente melhor. Terá sido por solidariedade com Deco? Porque jogou Simão assim? Ou melhor, porque não jogou?

8. Conseguirá Queiroz alguma vez ter mão nesta balbúrdia, entre a Federação, os empresários de jogadores e as primas-donas para quem (do alto dos seus contratos no Real Madrid, no Chelsea, no Atlético de Madrid e outros que tais) a selecção não passa de uma chatice? Seria bom que tivesse, promovendo outros jogadores e mandando muitos destes dar uma volta.

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Faz parte

Junho 24, 2010

(Publicado no jornal Metro, 24/6/2010)

Faz parte: não se sabe bem como, decreta-se que a selecção nacional “é uma porcaria” e Queiroz “um desastre”. Ao mesmo tempo, alguém afirma com ar sabedor que a Inglaterra e a Espanha é que “vão dar cabo disto”. Já toda a gente esqueceu que o grupo da selecção era o mais difícil do Mundial e a Costa do Marfim uma das melhores equipas presentes. O empate com a Costa do Marfim confirma logo “que os gajos não vão a lado nenhum”. Pouco importa que um dos mais feios brasis de sempre se tenha visto em palpos de aranha para marcar à Coreia do Norte e que a Itália, a França e a Inglaterra produzam um futebol de liga dos últimos. E que a Espanha perca com essa potência mundial que é a Suíça. Nada afecta o oráculo futebolístico nacional, que as continua a decretar favoritas. Inclusive a França, que vive o seu “Saltillo”, algo que era até agora exclusivo nacional. Também toda a gente emprenhou de ouvido sobre uma Argentina que “não vai lá”, por causa de Maradona, mesmo depois de termos visto o ataque-maravilha da Argentina apresentar futebol só comparável ao do Brasil de 1982.

Entretanto, o Brasil lá ganha à Costa do Marfim com um golo de andebol, exactamente no momento necessário para garantir o resultado, e sempre a jogar “à Dunga” (campeão de 1994, provavelmente o mais horrível campeonato de todos os tempos). Por sua vez, Portugal aplica uma cabazada à Coreia do Norte e já está quase nos oitavos-de-final. Enfim, a Coreia é o que é, e a selecção não poderá voltar a jogar da mesma maneira, não tendo sequer ficado demonstrado que é candidata. Mas, tirando a Argentina, ainda não se viu melhor futebol no campeonato do que o da segunda parte de Portugal neste jogo. Corre tudo ao contrário das previsões, ninguém corrige o tiro perante os factos e continuam as afirmações peremptórias. É nesta altura que aparece a voz sensata e moderada de um comentador do jornal Metro, explicando o disparate com notável clarividência. É a voz da razão contra a emoção desbragada. Faz parte.

Assinar, sff

Junho 23, 2010

Por mim falo:

O encerramento durante quase um ano de uma instituição que detém colecções sem alternativas (Secção de Reservados, espólios do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, Secção de Periódicos por exemplo) é incompatível com o prosseguimento da actividade científica de largas dezenas de estudantes e investigadores que necessitam desse material.

A indisponibilização dos acervos da BNP comprometerá a viabilização de projectos em curso, muitos deles com financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior ou de outras instituições, e porá em causa o cumprimento de calendários e compromissos académicos estabelecidos. O encerramento de uma instituição como a Biblioteca Nacional teria, no mínimo, que ser publicamente comunicado com um ano de antecedência para que as várias partes envolvidas (universidades, instituições de financiamento, estudantes, investigadores) pudessem planear o seu trabalho em função desses dados. É inadmissível que uma determinação deste género seja comunicada apenas com cinco meses de antecedência.

Em breve numa livraria perto de si

Junho 22, 2010

O Jorge Costa mostra-se exasperado por não conseguir encontrar o meu livro nas livrarias. Não sei se vale a pena a exasperação, mas de qualquer maneira posso tentar ajudar a esclarecer o Jorge e outros interessados. Na semana passada, foram apresentados três livros da colecção Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, mas a sua publicação vai ser faseada. Esta semana julgo que ficará disponível o nº 1, da Maria do Carmo Vieira. Só para a semana o meu. Penso que fará parte de um plano editorial, mas não me perguntem qual.

Help-thy-neighbour

Junho 21, 2010

A China faz pelos EUA o que a Alemanha não faz por Portugal (e pela Grécia e Espanha).

CBA

Junho 21, 2010

Ontem, gostei muito de ver a vitória da equipa da Confederação Brasileira de Andebol. Há 40 anos que o Brasil vive dos créditos da selecção acima e toda a gente lhes desculpa tudo. Até os árbitros.

De uma Europa à outra

Junho 17, 2010

(Publicado no jornal Metro, 17/6/2010)

Comemoraram-se a semana passada vinte e cinco anos da nossa adesão à CEE. O país mudou muito. Em 1985 tínhamos ainda um Presidente militar (e lembrávamo-nos do Conselho da Revolução), éramos uma economia protegida, com taxas de 20% de inflação, e tínhamos 30 km de auto-estrada. Hoje somos uma normal democracia “civilizada”, estamos abertos ao comércio europeu, temos uma das mais fortes moedas do mundo e uma rede de auto-estradas de fazer inveja a qualquer país desenvolvido.

Mas não fomos só nós que mudámos. Foi a própria Europa. Quando pedimos a adesão em 1977, o objectivo era fugir às ameaças de “comunismo” ou de “socialismo original” que apenas dois anos antes pairavam sobre o país. Tratava-se então de nos alinharmos pelo Ocidente, transformando-nos numa democracia e num Estado-Providência. A CEE passou a ser, por isso, um dos elementos do código genético do regime nascido a 25 de Abril de 1974. Quando entrámos, oito anos depois, a CEE ainda era apenas uma comunidade de Estados independentes, abertos ao comércio e dispostos a uma certa homogeneização legal. Mas pouco depois tudo mudou. Em 1989, o muro de Berlim caiu e em 1991 a URSS acabou. A CEE deixou de fazer sentido enquanto âncora de ocidentalização. Para continuar a conferir sentido ao projecto europeu, os países-membros decidiram saltar em frente, no Tratado de Maastricht de 1992, criando a UE e a moeda única. Não se tratava agora apenas de promover a cooperação inter-estadual, mas de avançar para a união política.

Nos anos 70 e 80 fazer parte da Europa comunitária significava uma coisa. Hoje, fazer parte da UE significa outra bastante diferente. Na CEE, as instituições comunitárias nunca se imiscuiriam na definição de objectivos orçamentais, na definição da política laboral ou do sistema de pensões, como aconteceu há uma semana. Em 1985, a CEE era um selo de garantia democrática. Em 2010, a UE é mais um problema (a juntar a muitos outros) com que a democracia se tem de confrontar.

Últimas (updated)

Junho 17, 2010

Num país onde toda a gente escreve um livro, acho que faltava eu. Já não falto: perpetrei uma coisinha pequena, por amável convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos, do seu presidente, António Barreto, e de um dos seus curadores e responsável pela colecção em que o livro se integra, António Araújo. Trata-se de uma interpretação sobre a evolução da economia portuguesa desde o 25 de Abril. Talvez um dia dê para falar mais sobre o que lá digo. Para já, queria agradecer as simpáticas referências à publicação pelos meus amigos Manuel Pinheiro, Miguel Morgado, Miguel Noronha, Paulo Pinto Mascarenhas e Pedro Lains (que tivesse reparado – se alguém faltar que me desculpe). E agora também o Bernardo Pires de Lima e o Henrique Raposo.

Che mondo sarebbe senza Nutella

Junho 17, 2010

Isto sim é o fim da civilização ocidental.

Últimas

Junho 16, 2010

Num país onde toda a gente escreve um livro, acho que faltava eu. Já não falto: perpetrei uma coisinha pequena, por amável convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos, do seu presidente, António Barreto, e de um dos seus curadores e responsável pela colecção em que o livro se integra, António Araújo. Trata-se de uma interpretação sobre a evolução da economia portuguesa desde o 25 de Abril. Talvez um dia dê para falar mais sobre o que lá digo. Para já, queria agradecer as simpáticas referências à publicação pelos meus amigos Manuel Pinheiro, Miguel Morgado, Miguel Noronha, Paulo Pinto Mascarenhas e Pedro Lains (que tivesse reparado – se alguém faltar que me desculpe).