Archive for Setembro, 2007

O país chato ilustrado (2)

Setembro 28, 2007

Em nome do frágil equilíbrio nacional belga: 

O país chato ilustrado (1)

Setembro 28, 2007

O país chato

Setembro 28, 2007

(Publicado no jornal Meia-Hora, 27/9/2007)

Provavelmente ninguém deu conta, mas a Bélgica não tem governo há quase quatro meses. O interesse da crise resulta de duas coisas: uma, por já ter sido vista (talvez com exagero) como o princípio do fim do país; a outra, por a Bélgica ser o centro da União Europeia, a suprema experiência da pós-nacionalidade. Seria realmente muito irónico que, ao mesmo tempo que a UE se desentranha a criar um espaço político superior às nações, mais duas nações ali aparecessem.

Mas a crise belga vale sobretudo por nos recordar a matéria de que é feita a Europa. Os europeus habituaram-se a ver-se como membros de um belo espaço de harmonia e prosperidade. O que é esquecer toda a História anterior. A Bélgica é um óptimo exemplo: um país caprichoso num mar de caprichos parecidos. Criada recentemente (em 1831), ela é hoje uma espécie de Sildávia (um país inventado na própria Bélgica) democrática e rica, famosa pela cerveja, o chocolate, o mexilhão com batata frita, a batata frita propriamente dita e dois ou três exemplos de cultura popular e eurdita (Tintim ou Magritte), que ninguém sabe serem belgas.

É como se, à medida que sonha cada vez mais alto, a UE estimulasse os instintos mais primitivos dos europeus, e à medida que os estados nacionais tradicionais perdem relevância no enquadramento das comunidades, mais se multiplicassem os pequenos estados. Na Catalunha não há dia em que não se fale do “estado catalão” (e queimam-se fotografias dos reis, os símbolos maiores da Espanha una), enquanto a ETA persiste nas bombas. Na Escócia governam os nacionalistas, prometendo a independência para breve. Bem trabalhada, a Itália facilmente seguiria a mesma estrada. E muitos outros. O mais difícil é aparecer a primeira nação, que logo se inventam centenas.

Um indígena (Jacques Brel) chamou à Bélgica o “país chato” (le plat pays), jogando com as palavras: “chato” porque sem montanhas e “chato” por nada lá acontecer. A verdade é que a Bélgica sempre foi interessante. E agora arrisca-se a sê-lo ainda mais.

Eu ainda me lembro

Setembro 24, 2007

E sobretudo lembro-me da única advogada por quem me apaixonei (nº1 na ilustração anexa):

Pânico nas ruas de Londres

Setembro 21, 2007

(Publicado no jornal Meia-Hora, 20/9/2007)

Era típico dos pânicos financeiros do século XIX e ainda hoje vai ocorrendo na América Latina. Mas era a última coisa que se esperaria ver em Inglaterra. No entanto, eis que nos últimos dias temos assistido à imagem de clientes fazendo bicha à porta do banco a fim de recuperarem os seus depósitos. Aconteceu apenas com um pequeno banco (o Northern Rock), mas se o Banco de Inglaterra não tivesse lançado uma linha de crédito de salvamento, o pânico poderia ter-se generalizado. A crise tem origem no mercado subprime dos EUA (de empréstimo hipotecário a clientes de risco), mas mostra como o empréstimo dito “irresponsável” (ao contrário do que se ouviu dizer nos primeiros tempos da crise) não é uma especialidade americana. O Northern Rock, por exemplo, insere-se numa espécie de subprime europeu, sem a clareza do original americano.

É escusado explicar aqui as complexas operações que permitem o funcionamento destas instituições, mas vale a pena perceber que os bancos portugueses não estão imunes a nada disto. É verdade que, tanto quanto se sabe, não utilizam os mesmos instrumentos financeiros do Northern Rock e outros, estando por isso um pouco mais protegidos. Só que também eles passam o tempo a fazer crédito de risco. Sobretudo para compra de casa, mas também para consumo corrente. O resultado é um endividamento extraordinariamente gravoso para muitas famílias.

O que está a passar-se é uma crise de liquidez, coisa que tem como consequência o encarecimento do dinheiro (ou seja, a subida das taxas de juro). Os bancos centrais bem tentam contrariar, injectando liquidez, mantendo as taxas centrais em baixo, salvando bancos comerciais. Mas mesmo assim as taxas de juro vão subindo, por via das margens nos empréstimos interbancários, como punição pelas facilidades creditícias que as taxas baixas permitiram durante estes anos. E quando elas começarem a pesar cada vez mais nos orçamentos sobreendividados dos portugueses, as consequências podem não ser nada bonitas.

A mente de um criminoso II

Setembro 19, 2007

Ainda a propósito:

Presunção de populismo

Setembro 19, 2007

Vasco, prefiro efectivamente que as tuas considerações agora sejam sobre o meu (presumivelmente mau) gosto do que sobre as minhas intenções. Embora tu lá chegues outra vez às intenções (na parte sobre “populismo”)…

Seja como for, para não iniciar aqui uma daquelas discussões encaracoladas e intragáveis em que a blogosfera é pródiga, vou tentar ser breve e não debater ponto por ponto aquilo com que não estou de acordo no que dizes. Atenho-me só a duas coisas:

1 – Eu não tenho nenhuma “fezada”. Não sei o que aconteceu à pobre menina. Estou tão disposto a achar que os pais são inocentes quanto culpados. Limitei-me a fazer um exercício, que me parece até bastante neutral, partindo da suspeita da polícia, sendo que essa suspeita se confronta com um problema: a inverosimilhança. Na verdade, alguém podia pegar no meu texto, olhar para a enésima reportagem sobre os McCann (que são muito telegénicos) e dizer: “Não é possível! Eles não fizeram aquilo”. Eu podia ter escrito um texto ao contrário? Podia. Mas não escrevi. E isto prende-se com a segunda coisa:

2- A tua acusação de “populismo” parte da ideia de que, nestes casos, vale sobretudo a reserva  a que a presunção de inocência obrigaria e de que qualquer coisa indo para além disso é populismo, um acicate ao ódio popular. Não estou nada de acordo. Ao contrário da maioria dos escreventes em jornais e blogues (incluindo tu, peço desculpa), eu acho que a generalidade das pessoas não só sabe como raciocina em termos de presunção de inocência. Não falo dos “populares”, claro, que se põem a gritar à porta da polícia. Mas os “populares”, contrariamente ao que se julga, são uma minoria. As outras pessoas continuam a duvidar (por muito que algumas tenham, como dizes, “fezadas”). Ao contrário da tua visão paternalista e pedagógica, eu penso que é possível e interessante ir para além do silêncio a que a presunção de inocência nos remeteria. É possível não perder a ideia de presunção de inocência e, ao mesmo tempo, elaborar um pouco mais sobre o caso. Quando as pessoas são crescidinhas, é possível. Eu presumo que elas são crescidinhas. Talvez tu não.

Podes então passar a chatear o Mascarenhas.

PS – Não resististe à gracinha paternalista do TPC, que não existia na versão do teu texto que li hoje à tarde. Vês, até comigo és paternalista. Ainda bem. Pelo resto do texto cheguei a pensar que estavas a perder qualidades.

A mente de um criminoso I

Setembro 18, 2007

A propósito:

A presunção inventada

Setembro 18, 2007

Vasco, tu és um tipo, digamos, assim um pouco a dar para o chato. Desde há uns anos a esta parte que, de vez em quando, te lembras de implicar comigo. Mas é como dizem os espanhóis, I don’t give a shit.

Agora, sobre este caso, sempre digo mais qualquer coisa, até porque aproveito para esclarecer um ou outro ponto.

Começo por apreciar o teu artifício retórico de comparares o meu artigo com o de José António Saraiva, o qual consideras “nojento”. É verdade que não dizes que o meu o seja, mas a comparação está feita. Depois, aprecio também que, num texto sobre presunção de inocência, não me confiras qualquer presunção de inocência sobre aquilo que acreditas que eu quis fazer. Também não é grave, mas é algo que me permite acrescentar o seguinte:

Presumo que presumas que não sei o que aconteceu à pobre da Madeleine McCann. As únicas coisas que sei sobre o caso são, por um lado, a campanha mediática montada pelos pais para encontrar a filha e, por outro, as suspeitas da Polícia Judiciária sobre o possível envolvimento deles na morte da criança. Ora, isto significa que não tenho qualquer dificuldade em considerá-los presumivelmente inocentes. Mas significa também que não posso ignorar as suspeitas da polícia. Apesar de tudo, atribuo uma certa credibilidade à polícia portuguesa. E custa-me a crer que seja leviana ao ponto de apontar apressadamente para uns culpados de ocasião. Porque presunção de inocência não significa inocência efectiva. E uma coisa é presumir que eu (aqui em Lisboa) ou tu (aí em Nova Iorque) estejamos inocentes neste caso, outra é presumir que estejam inocentes pessoas que a Polícia Judiciária suspeita não estarem inocentes. A presunção de inocência é uma coisa sem dúvida muito linda, mas nenhuma investigação pode decorrer baseando-se integralmente nela. A presunção de inocência serve para que quem investigue não deva facilitar e deva, portanto, acumular indícios ou provas suficientes permitindo incriminar para além de uma dúvida razoável. Claramente, não é o caso do casal McCann, sobre cuja culpa se podem levantar ainda muitas dúvidas razoáveis. Mas isto não elimina o facto de a Polícia Judiciária achar que tem indícios fortes dessa culpa e, se o acha, dever orientar a investigação nesse sentido.

O meu artigo era sobre aquele que é o aspecto mais interessante do caso, partindo da suspeita da polícia: o da inverosimilhança. Porque parece de facto inverosímil que pessoas culpadas façam o estardalhaço público que o casal McCann fez. É esta a pergunta que está na minha cabeça, e é muito provavelmente a que está na cabeça de toda a gente. Será possível? Porquê? Para quê? O meu artigo era sobre uma ideia simples: a de que inverosimilhança não é igual a impossibilidade. Ainda o mês passado se descobriu o caso de uma mãe francesa que matou quatro filhos à nascença e os manteve guardados durante anos na sua bela casa rústica de província. É inverosímil? É incrível? É. Mas verdadeiro. E todos nós nos lembraremos de uns outros quantos casos identicamente incríveis. O interessante no caso McCann é como, a confirmarem-se as suspeitas da polícia, a máxima exposição corresponde à máxima ocultação. É horrível e monstruoso (se verdadeiro). Mas é aqui que entra a longa história da monstruosidade humana.

Eu não quis culpar o casal McCann nas páginas de um jornal de distribuição gratuita. Quis apenas, muito inocentemente (se me permites a graça), pensar como seria possível que fossem culpados. Era só isso. Mas a má vontade consegue realmente pôr as coisas mais horríveis na cabeça dos outros.

A natureza humana

Setembro 14, 2007

(Publicado no jornal Meia-Hora, 13/9/2007)

A confirmarem-se as suspeitas da Polícia Judiciária de que terá sido o casal McCann a matar a filha, estamos perante uma daquelas histórias que nos fazem duvidar da bondade da natureza humana. Não a morte da criança, que neste caso se deveria a um acidente, mas a parafernália mediática montada a seguir. Apenas criaturas monstruosas seriam capazes de, sabendo da sua própria culpa, manipular a opinião pública mundial desta forma quase pornográfica.

Ninguém quer crer que seja possível. Mas talvez valha a pena lembrar aqui a história recente do escritor polaco Krystian Bala, que não hesitou em passar para um livro o relato do assassinato por si cometido sobre um homem que foi amante da sua mulher. Bala parece ter acreditado que a sua melhor defesa seria tornar inverosímil a hipótese da sua culpa, usando para isso a exposição pública. De facto, quem acreditaria que o autor de um homícido iria relatá-lo em pormenor num livro que vendeu milhões? E quem acredita que os autores da morte de uma criança se exponham da maneira que os McCann escolheram fazer?

A verdade é que já se viu de tudo. Mas são estas coisas que em vez de nos fazerem descrer da natureza humana antes deveriam reforçar a nossa crença nela. O cálculo, nos dois casos (na hipótese de os McCann serem efectivamente culpados, o que ainda está longe de provado), assentaria na ideia de que ninguém pode ser tão monstruosamente frio ao ponto de escolher confrontar-se diariamente ao interrogatório público. No fundo, os monstros acreditam que a essencial bondade do ser humano não concebe tal coisa. Mas há algo em que falham. É que muitos de nós já tivemos pensamentos desprezíveis. O que nunca fizemos foi passá-los à prática. A diferença não está em conceber o horror. Está em praticá-lo. É neste ponto de contradição essencial que a monstruosidade se afirma e, consequentemente, se incrimina. A maior parte das pessoas podem não ser más. Mas já imaginaram sê-lo. Só que nunca foram.