Música no Coração

(Publicado no jornal Metro, 5/5/2011)

Parece incompreensível que o casamento do segundo príncipe na linha sucessória de uma monarquia (e país) decadente(s) atraia o mundo inteiro. Ignoro se os monárquicos apreciaram o espectáculo, mas é provável que não. O matrimónio de William e Kate, no seu carnaval pop, limitou-se a ser mais um passo na afirmação do verdadeiro soberano dos nossos dias: o povo (primeiro inglês, depois americano e, apenas por causa deste último, do mundo inteiro).

Os casamentos reais de outrora eram um espectáculo de afirmação soberana. Mas desde as revoluções ditas liberais, do século XVII em diante, que a soberania transitou para o povo. As modernas monarquias constitucionais não são verdadeiras monarquias, no sentido em que a soberania seja dinástica. Elas são repúblicas democráticas que toleram a existência da monarquia apenas como símbolo nacional. Já João Chagas dizia em 1908, “a Inglaterra é uma velha, velhíssima, república, que se colocou sob a invocação do poder monárquico”. O próprio nome Windsor, da casa que reina na Commonwealth, foi inventado em 1917, em plena I Guerra Mundial (uma guerra nacional e democrática), por Jorge V, para evitar a ressonância alemã do nome original da família: Saxe-Coburgo-Gota.

Por acaso nos EUA há umas semanas, por motivos de trabalho, apercebi-me da verdadeira “casamentite” que invadiu aquele país normalmente tão democrático: os preparativos abriam o noticiário, mesmo antes da discussão do Orçamento ou da guerra da Líbia. Apesar do desprezo que nutre pela Inglaterra, como antiga potência colonizadora, o povo americano tem a nostalgia do império. Não foi o poder dos Windsor nem da Inglaterra a dar dimensão mundial ao evento, mas o poder da óbvia beleza dos noivos e da indústria do entertainment americana (que precisa dessa beleza), transformando-o numa verdadeira festa para o povo. E foi graças a essa indústria que o mundo inteiro se agarrou à televisão, julgando provavelmente estar a ver em directo uma espécie de Música no Coração real.

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