Parceiros assim…

(Publicado no Diário Económico, 14/4/2011)

Vem aí nova onda de tensão na zona euro: na quinta-feira, o BCE subiu a taxa de juro de referência, na mesma semana em que soubemos que íamos sofrer mais um pacote de austeridade ligado à “ajuda” europeia. Como se não bastasse a recessão que o pacote vai trazer, ficámos a saber que a política monetária contribuirá para a aprofundar. A zona euro está a transformar-se num trágico colete-de-forças. Depois da desarmonia dos desequilíbrios de pagamentos entre os vários países que a constituem chega a luta a propósito da política monetária para combater a inflação. As duas coisas estão ligadas.

O acumular de défices externos nos chamados países “periféricos” deu origem a duas perspectivas sobre a melhor forma de lidar com eles. Os próprios países “periféricos” imploraram por ajuda, de preferência sem condições. Em nome da decantada “solidariedade europeia”, queriam apenas que os países com excedentes de pagamentos internacionais vertessem sobre eles esses excedentes, no fundo transformando o endividamento numa espécie de subsídio. Já os países “centrais” (na realidade, a Alemanha) quiseram impor limites à dita solidariedade: pagar os défices dos “periféricos” não podia ir à borla. Por isso impuseram aos países “beneficiados” com “ajuda” uma série de programas de supervisão orçamental, de austeridade e de reformas estruturais. Dado o seu efeito punitivo sobre a actividade económica, os países periféricos têm sido muito castigados na sua capacidade de inverter a situação deficitária. Em consequência, achou-se que, afinal, talvez fosse necessário ser mais flexível e pôs-se o BCE a comprar dívida pública dos países deficitários e a injectar fundos nos seus sistemas bancários. A zona euro, no seu conjunto, não quer simplesmente transferir fundos dos países excedentários para os deficitários. Ao mesmo tempo, também não quer dar o passo descomunal de criar um Ministério das Finanças europeu, que seria pouco menos do que a criação de um Estado-nação europeu pela porta do cavalo. O resultado tem sido a adopção de medidas que não são bem uma coisa nem outra mas que, ao mesmo tempo, procuram sê-lo. O BCE está, na realidade, a funcionar simultaneamente como banco central e Ministério das Finanças. Mas dado possuir apenas o instrumento monetário, o resultado tem sido a expansão da massa monetária e o regresso da inflação.

Com a inflação a subir, o BCE decidiu voltar à disciplina. A origem do problema está nos países excedentários, cujas economias o BCE receia que fiquem sobreaquecidas. Claro que estamos a falar, de novo, sobretudo da Alemanha. Só que a disciplina monetária mais a austeridade vão deixar-nos de rastos. Com parceiros assim quem precisa de inimigos?

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: