Delírios

(Publicado no jornal Metro, 31/3/2011)

A política portuguesa continua naquele modo delirante que a tem caracterizado desde que é primeiro-ministro o primeiro-ministro demissionário. Há seis anos, o delírio era um país carregadinho de aeroportos, comboios rápidos, autódromos, hélices eólicas, fábricas de chips… Era o então célebre “choque tecnológico”. Parece que foi há seis séculos… Muito mudou desde essa altura, mas não o delírio. A propósito da crise, já ninguém se lembrará, mas ela não existia em Portugal. O mundo bem podia estar em chamas que, num cantinho da Europa, um pequeno país de irredutíveis lusitanos resistia ainda e sempre ao subprime. Depois, “o mundo mudou em quinze dias” e tivemos de fazer uns arranjos, mas poucos. Foi por isso, como estava tudo a correr muito bem, que se tornou necessário montar três pacotes de austeridade mais um orçamento do mesmo género.

O último episódio desta abordagem delirante à realidade chama-se “Portugal não precisa de ajuda”. Convém começar por perceber que Portugal já está a ser ajudado há muito tempo: o BCE ou compra directamente dívida pública portuguesa ou deixa os bancos portugueses comprá-la e depois aceita-a como colateral para lhes emprestar liquidez. Não tem bastado: mesmo com estas ajudas, as taxas de juro sobem impiedosamente. Convém também perceber que se aceitasse a ajuda agora, o Governo português poria um travão a esta cavalgada heróica, ficando o juro a um nível ainda elevado mas, pelo menos, travado.

Claro que este é um delírio bem racional. Haverá eleições daqui a mais ou menos dois meses. Se o Governo aparecesse agora como aquele que decretou a sua própria falência, seria quase como entregar a vitória ao PSD, quem sabe se com maioria absoluta. Entretanto, daqui até lá, continuaremos a arruinar-nos com taxas de juro cada vez mais altas. No meio fica o PSD, entre querer já o pedido de ajuda e não querer dar a ideia de que quer que o Governo o faça já. O Governo gritaria então ao “traidor”, um óptimo bordão de campanha. É o delírio.

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