Bloco Nacional

(Publicado no Diário Económico, 31/3/2011)

O português, certamente dada a sua natureza franca e boa, não perde uma ocasião para estabelecer “consensos” com o resto dos portugueses. É por isso que, a propósito da actual crise, imensos portugueses vêm pedindo imensos consensos. Já se ouviu de tudo: há o Bloco Central clássico, PS e PSD; há o Bloco Central premium, PS-PSD-CDS; há o Bloco Centralíssimo, PS-PSD-CDS-centrais patronais-sindicatos; há o Bloco Centralíssimo premium, PS-PSD-CDS-centrais patronais-sindicatos-banqueiros-senadores da pátria; e até já se pediu o Bloco Central soviético, PS-PSD-CDS-PCP. É como lá em casa: falta a luz? Faça-se um Bloco Central. Furou-se um pneu? Forme-se um Bloco Central. Já explicar qual o conteúdo destes blocos é tarefa a que ninguém ainda se dedicou propriamente. Um Bloco Central para quê?

Estes pedidos, que parecem relevar de uma certa nostalgia pela União Nacional, levantam diversos problemas. O primeiro é que nunca há, efectivamente, consensos, pelo menos no sentido correcto da palavra, que é o de toda a gente estar de acordo. A União Nacional unia todos, menos os que excluía. E os que excluía eram muitos e tratados com a devida violência. O Bloco Central tal como existiu em Portugal, nos anos de 1983 a 1985, foi feito para aplicar uma receita de enorme violência social, que obrigou ao encerramento de fábricas e a despedimentos maciços. Por definição, as vítimas deste tratamento não fizeram parte do consenso. Portanto, aquilo a que se chamam consensos são, na realidade, alianças para combater numa certa forma de guerra social. O segundo problema é que, para ter sucesso, uma aliança deste género tem de ter um programa claro. Em concreto, o Bloco Central de 1983-1985 foi feito para pôr em prática as medidas que o FMI exigia em troca de um empréstimo que reequilibrava as nossas contas externas. Havia, portanto, um programa explícito, baseado num acordo mínimo entre os dois partidos. Não se tratou de fazer uma coligação por fazer.

Não quer isto dizer que para aplicar certas medidas uma coligação não seja necessária. Mas antes é necessário saber que medidas. Será que PS e PSD estão de acordo sobre o que fazer? Isto para não falar do CDS, do PCP, dos banqueiros e dos sindicatos. Quer o PS rever os princípios do SNS? Quer o PCP, ou o PS, rever a legislação laboral? Quer toda a gente rever o sistema de pensões? Querem todos hipotecar à UE parte da definição da política económica e do Estado social como ela agora exige?

Enquanto nada disto estiver esclarecido, qualquer bloco central em qualquer das versões sugeridas não significa nada ou, o que é pior, não passa de uma receita para o desastre e para jamais ser feito o que é preciso.

 

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