“Like” Revolution

(Publicado no jornal Metro, 10/3/2011)

Talvez a maior contribuição do jornalismo ocidental para a compreensão das “revoluções árabes” tenha sido identificá-las com as “redes sociais”. A doutrina divide-se em vários grupos, indo dos que defendem, modestamente, que elas foram “importantes” para as revoluções até àqueles para quem, sem elas, “as revoluções não teriam acontecido”. Como se sabe, nunca houve revoluções políticas antes do Facebook, da Internet e dos telemóveis. Já Cromwell, em 1640, teclava furiosamente no seu Samsung 3G. Todos fomos ensinados a ver na tomada da Bastilha o maior exemplo de uma acção em “rede social”. Evoque-se ainda Lenine e o seu Blackberry, através do qual comunicava com Trotski (que, ao que consta, preferia o iPhone). E quem não se lembra de Salgueiro Maia e do seu inseparável portátil Toshiba Satellite U300 – 14P?

Esta identificação das “revoluções árabes” com as novas tecnologias resulta talvez de duas coisas. Uma, aquela tendência infantil, muito Disney, que adora antropomorfizar animais para melhor se identificar com eles. Poderá haver coisa mais comovente do que um panda gordinho que fala e do que um árabe com conta de hi5? A outra é uma verdadeira incapacidade para compreender estas revoluções. Habituados a zurzir no “capitalismo selvagem”, sempre à espera da “crise ocidental” final, não compreendemos as “crises finais” de sistemas que tínhamos por “estáveis” (quem sabe, “milenares”?). Lembra os velhos “sovietólogos”, que no dia anterior à queda do muro de Berlim continuavam a antecipar o momento em que a URSS ultrapassaria os EUA em mísseis balísticos.

Agora toda a gente quer “democracia” no mundo árabe, o mesmo regime que aqui no Ocidente está sempre em crise. É uma devoção nova. Ainda o ano passado quem propunha tal coisa era tido por um triste “eurocentrista” ou por (supremo horror!) um apologista da “americanização” do mundo. Toda a gente quer a democracia, mas fez muito pouco para isso. Serão más notícias, mas não é graças ao Twitter que se vai lá chegar.

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