Destinos cruzados

(Publicado no Diário Económico, 3/3/2011)

Angela Merkel e José Sócrates encontraram-se ontem. À hora a que escrevo, ignoram-se ainda os resultados da reunião. Mas os dois estão mais próximos entre si do que se julgaria. Ambos querem ganhar tempo. Para Merkel começa a ser impossível suportar a pressão interna contra uma maior participação alemã no salvamento das economias periféricas do euro: depois da derrota em Hamburgo, os partidos da sua coligação recusaram a “flexibilização” do Fundo do Euro, e aproximam-se agora seis eleições com más perspectivas. Para além disso, Merkel sabe que a “europeização” da “ajuda” alemã é um grande passo na criação de uma espécie de Ministério das Finanças europeu e, logo, de uma espécie de Estado europeu. É muito difícil, portanto, que faça mais do que já fez. Mas, por outro lado, ela também sabe que sem a tal “europeização” da participação alemã, o euro está efectivamente em risco. Mais do que isso, para o que lhe importa: a solvência da banca alemã (grande investidora em dívida periférica) está em risco. Perante esta embrulhada, a tentação é deixar as coisas andar até à eventual ocorrência de qualquer coisa próxima de um milagre.

Sócrates também quer ganhar tempo. Enquanto não vier a “intervenção” do FMI/Fundo do Euro, pode dizer que está a fazer tudo o que é necessário para “defender Portugal” e que não se justificam eleições antecipadas. Até lá, se a oposição não apoiar o Governo ou o fizer cair, será logo acusada de causar “instabilidade”, podendo efectivamente ser punida com um mau resultado nas tais eleições antecipadas. A vinda da “intervenção” externa é que seria a sentença de morte do Governo e uma grande ajuda à oposição. Também Sócrates prefere, portanto, que tudo fique na mesma até à eventual ocorrência de qualquer coisa próxima de um milagre.

Merkel e Sócrates são, assim, os símbolos perfeitos da tragédia europeia em curso: o único país que pode, mas não quer (mas também quer), salvar o euro, e o país que constitui a ameaça mais próxima ao euro. Se ambos não sabem muito bem o que fazer e, por isso, vão tergiversando até qualquer coisa acontecer, nunca Sócrates disse uma coisa tão certa quanto no outro dia: “depois da crise, a Europa não será a mesma. Ou avança ou recua”. Na sua defesa do “avanço”, o que já não explicou foram as transcendentes consequências disso. Ao contrário do que ele (e a generalidade da classe política portuguesa) julga, recuar também teria méritos. Melhor dito: avançar ou recuar teriam ambos enormes custos certos e méritos apenas hipotéticos. Tratar-se ia de fazer uma escolha política muito difícil que todos deveríamos discutir antes de aceitarmos mais um passo de gigante (talvez mortífero) do dito “projecto europeu”.

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