É melhor?

(Publicado no jornal Metro, 10/2/2011)

São insondáveis os caminhos do debate político em Portugal. Durante meses, agitou-se por aí o fantasma do “FMI”: que uma “intervenção do FMI” era uma “vergonha” e uma “derrota”, que era um “fracasso” do país em geral e do Governo em particular. De repente, desde o Conselho Europeu de sexta-feira passada, parece que essa intervenção se tornou improvável, o que ainda está por provar. De qualquer forma, a nova perspectiva deu imensa alegria a imensa gente. O jornal Expresso, por exemplo, encheu a primeira página com o título garrafal “FMI já não vem”, com evidente alívio. Artigo atrás de artigo explicou como estaríamos perante uma “vitória” do Governo, mesmo quando já se percebeu qual é a alternativa. O Conselho Europeu visou criar um “mecanismo europeu” de salvação das economias do euro em crise. Na realidade não criou nada, protelando tudo para Março. Mas se vier a criar, ficaram a conhecer-se as contrapartidas: impor a esses países uma série de medidas que os seus eleitorados não votaram e os seus parlamentos e governos não decidiram. Tudo por iniciativa de dois governos estrangeiros, o alemão e o francês, e não das apropriadas instituições europeias.

Vá-se lá saber porquê isto é visto como menos grave do que a “vinda do FMI”. Claro que a “vinda do FMI” também corresponderia a uma perda de independência do país (ou de soberania, como se gosta de dizer agora) e à transformação das instituições portuguesas em executoras de medidas “lá de fora”. Mas uma intervenção do FMI é, por definição, temporária: só existiria até ao momento em que o país voltasse a ser capaz de se governar a si próprio. Já estas decisões europeias são limitações permanentes de independência, parturindo um mostrengo que é e não é uma espécie de Estado-Nação europeu, onde ainda por cima não se seguem os procedimentos de decisão democráticos. Porque será isto um êxito por comparação com a “vinda do FMI” escapa à compreensão humana (pelo menos tal como existe fora do debate político português).

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