A AD

(Publicado no Diário Económico, 3/2/2011)

A direita portuguesa vive imersa no mito da AD, o tempo em que foi feliz: unida, venceu e mudou o país. Mas vale a pena recordar que a AD não se limitou a ser um arranjo eleitoral. Estávamos em 1979-1980 e a AD era sobretudo um projecto de mudança que, entre outras coisas, visava demonstrar que a direita podia governar em democracia e reformar as instituições e a economia sem que isso fosse o regresso ao fascismo. Não quer dizer que o país não esteja hoje maduro para outro projecto de longo alcance visando alterar o quadro profundo da nossa democracia. Muito pelo contrário. A sensação de crise que atravessa o país favorece-o. Preciso é saber se PSD e CDS estão maduros para protagonizar semelhante projecto.

Dois dias depois das Presidenciais, Paulo Portas veio logo sugerir uma nova AD. Na ausência do tal projecto, que Portas não enunciou, tudo indica estarmos perante um simples arranjo eleitoral. Nesse sentido, o passo foi acertado. Portas tornou-se um protagonista instantâneo e lançou um debate, que vai condicionar o PSD. Só que não é nada certo que o PSD queira uma nova AD. Não por acaso, Passos Coelho desvalorizou imediatamente a proposta. O PSD tem à sua frente vários caminhos que se bifurcam. Desde logo, alimenta esperanças de uma maioria absoluta à Cavaco, coisa que esvaziaria, à esquerda, o PS, e à direita, o CDS. Tudo depende da erosão que a crise causar no actual Governo. Claro que também sabe que nada disto é garantido. A erosão pode nem sequer funcionar. Mas presumindo que funcione, pode simplesmente dar origem a uma maioria relativa do PSD, o que exigiria um plano de coligação. Mas aqui volta a existir mais do que uma hipótese. Uma delas seria a tal AD. Mas outra seria algo de semelhante a um Bloco Central, coisa para que a situação de crise convida e a vocação centrista do Presidente da República reeleito também.

PSD e CDS não parecem, por isso, estar espontaneamente apontados a um projecto de mudança que pudessem reivindicar como apenas seu. É verdade que têm vindo do PSD uns rumores, mas tudo soa um pouco a estafado: a velha querela constitucional ou a reforma do mercado de trabalho. Talvez valesse a pena pegar nos assuntos de outra maneira. Um exemplo: a reforma do mercado de trabalho não é importante para o flexibilizar (ele já é razoavelmente flexível), mas para acabar com a cisão geracional que acentua o desemprego e a precariedade jovens. Outro exemplo: não vale a pena repetir que a Europa não se discute; a Europa é um dado adquirido do nosso quadro institucional, mas a actual crise veio mostrar que a maneira como nos inserimos nela precisa de ser reavaliada. E há muito mais por onde olhar para pôr o país a falar e a discutir de outra maneira.

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