Esperemos que corra bem

(Publicado no Diário Económico, 6/1/2011)

Enquanto em Portugal choramos a nossa crise económica, quase todo o resto do mundo vive uma fase de optimismo. Diversas organizações internacionais estimam, para 2011, o crescimento da economia mundial em cifras entre os 4% e os 5%, com países como a China a crescer à volta de 9%. Até parece que saímos da crise mundial começada em 2007. Mas vendo bem, não saímos.

Este crescimento está baseado em instrumentos que não indicam sustentabilidade. Em primeiro lugar, está baseado em políticas orçamentais expansionistas (e insustentáveis a prazo) de vários países (especialmente os EUA, com um défice de 11% do PIB) e nas políticas monetárias do Federal Reserve Board, do Banco Central Europeu e do Banco da China, que, de uma maneira ou doutra, têm aguentado com facilidades monetárias as respectivas economias ou sistemas financeiros (na realidade, ambos). Depois, está baseado num equilíbrio dificilmente sustentável entre as três grandes áreas económicas do mundo: os EUA, a China e a Europa. O principal motor da economia mundial continua a ser os EUA. Neste sentido, a política de expansão da procura americana é a política de todo o mundo, particularmente a da China, que depende muito do mercado americano para colocar as suas exportações. Este é um dos graves problemas com que os EUA se confrontam: em larga medida à conta desta relação, continuam a destruir a sua base industrial e a endividar-se face ao exterior, sobretudo à China. Para compensar, o Federal Reserve Board tem aumentado a oferta monetária como forma de desvalorizar o dólar face ao yuan. Parece que com resultados, já que o desequilíbrio comercial dos EUA com a China tem diminuído. Por sua vez, para compensar esta quebra, o Banco da China vem também inflacionando a economia, que vive uma bolha imobiliária de proporções épicas e uma taxa de inflação que se descontrola de mês a mês. Finalmente, a expansão chinesa alimenta a procura de produtos europeus, em particular automóveis de luxo alemães (os Audis, BMWs e Mercedes que agora galopam na China). Com sorte, o crescimento alemão ajudará à expansão das exportações dos países menos competitivos da Europa, como Portugal.

Nada neste quadro mostra equilíbrio e augura permanência. Mas o mais interessante é verificarmos como, sob a aparência de um problema económico, estamos perante um problema político – que terá consequências económicas. São as autoridades destes países que não toleram o custo dos ajustamentos por que as suas economias teriam de passar para sustentarem o crescimento noutras bases. Vivemos no meio de um grande jogo e de uma grande aposta. Esperemos que corra bem.

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: