Impossível

(Publicado no Diário Económico, 11/12/2010)

A comunidade de países do euro lá continua a sua existência esquizofrénica. As múltiplas personalidades não se resumem às diferenças entre países, mas também às diferenças dentro dos próprios países. Um dia, o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble assegura que “a Alemanha não pode viver sem o euro”, no outro, a chanceler Angela Merkel recusa-se a adoptar os passos necessários para isso: aumentar o capital do mecanismo de estabilização do euro e criar uma dívida pública europeia. Até quarta-feira da semana passada, os governos da zona euro deixaram os juros das dívidas nacionais de risco subir até níveis recorde, para na quinta-feira o BCE prometer liquidez praticamente ilimitada (até Abril) aos sistemas bancários e a compra de dívida no mercado secundário. Claro que as declarações de Jean-Claude Trichet apareceram quando os juros das dívidas italiana e belga começaram a crescer e quando a França foi obrigada a fazer declarações explicando que não era a Grécia nem Portugal. Ou seja, quando o problema ameaçou deixar de ser periférico para passar a ser do centro.

Tudo isto mostra a situação verdadeiramente impossível em que se encontra a zona euro. A Alemanha tem incentivos para acabar e não acabar com o euro. Para acabar, porque sabe que enquanto o euro existir o desequilíbrio entre a sua economia excedentária e as dos deficitários exigirá transferências de rendimento para estas ou então um processo de emissão monetária que reduza o valor do euro, tudo coisas que não quer. Para não acabar, porque perderia clientes (os deficitários) e porque teria de nacionalizar os empréstimos dos seus bancos que têm comprado dívida periférica. Ora, no final, isto é o mesmo que proceder à tal transferência de rendimento que ela recusa. Os periféricos também têm incentivos para acabar e não acabar. Para acabar, porque poderiam desvalorizar as suas novas moedas, aumentando a competitividade e as exportações. Para não acabar, porque teriam de reescalonar as suas dívidas, perder acesso ao financiamento exterior e, muito provavelmente, nacionalizar a banca.

A situação é realmente impossível e resume-se ao dilema fundamental da zona euro. Na ausência de qualquer coisa que ninguém está a vislumbrar agora, restam duas hipóteses: ou o fim do euro ou o princípio dos Estados Unidos da Europa. O problema é que esta última hipótese é um salto quântico de tais dimensões que só por irresponsabilidade pode ser defendida alegremente. São tantas as questões que levanta, é tal a desmesura, que os países europeus mais ciosos da sua nacionalidade e da sua democracia (o que não parece ser o caso de Portugal, onde se implora por isto) não sabem mesmo o que fazer.

 

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: