Fugas Wiki

(Publicado no jornal Metro, 2/12/2012)

Parece que o choque foi planetário com as revelações contidas em 250.000 documentos do State Department dos EUA libertados pela organização Wiki Leaks (numa tradução aproximada, “Fugas Wiki”). É uma fuga que se segue a outras duas, sobre as guerras do Afeganistão e do Iraque. Nesta, há considerações feitas por funcionários diplomáticos americanos de vários níveis sobre muita coisa. Recorde-se que são fugas de informação, fornecidas por alguém interno ao departamento, obtidas ilegalmente, à revelia dos visados. São conversas de circulação restrita, em que a linguagem é, digamos, “descontraída” (admite-se talvez a sua relevância por serem de funcionários políticos no desempenho de cargos públicos). Resta um problema: retiradas do contexto, elas têm pouco significado. Sobretudo, não revelam uma política externa.

Mais interessante foi a reacção dos tradicionais indignados com a política externa americana. O editorial do jornal Público (ecoando, aliás, os seus equivalentes Guardian e New York Times), um óptimo barómetro local do que é a opinião global boa e progressista, lembrou-se imediatamente (e muito bem) de perguntar se a Wiki Leaks também revelaria documentos chineses ou iranianos. Desde logo, seria interessante saber o que aconteceria ao informador, na ausência de um exílio nos… EUA. Mas o editorial também lamentou que tudo isto afectasse a administração Obama. É bonito verificar como todos podemos ser ordeiros e responsáveis.

No final, sobra um exercício gratuito: ficamos a saber que Khadafi não dispensa uma “voluptuosa enfermeira ucraniana”, que Putin e Medvedev são vistos por algum diplomata como o “Batman” e o “Robin” da Rússia (note-se a insinuação gay), que Berlusconi é um “megafone” de Putin e organiza “orgias selvagens”, que os EUA têm medo do programa nuclear do Irão, que a Arábia Saudita pediu aos EUA para bombardearem o Irão, que a China não gosta da Google, e outras coisas do mesmo quilate. Era isto que ia mudar a face da guerra, do jornalismo e da política externa mundial. A sério?

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