O fim da União Europeia?

(Publicado no Diário Económico, 27/11/2010)

Há cerca de duas semanas, a chanceler Angela Merkel afirmou que “se o euro falhar, falha a União Europeia”, no que foi secundada alguns dias depois pelo Presidente de todos os europeus, Herman Van Rompuy, de acordo com o qual “se não sobrevivermos com o euro, não sobreviveremos como União Europeia”. Quem sou eu para argumentar com tais sumidades continentais, mas pergunto-me se não será exactamente ao contrário: o euro é que ameaça a União Europeia.

Talvez valha a pena começar por lembrar o óbvio: a UE é um arranjo institucional com cerca de cinquenta anos, mas só dez deles foram vividos em união monetária; e fora da dita estão países tão importantes como o Reino Unido, a Suécia ou a Dinamarca. Foi sem o euro que a UE se transformou no sucesso que (ainda) hoje é, promovendo a cooperação onde antes havia guerra. Até à união monetária, a UE começou por ser simplesmente uma área de livre-câmbio e uma união aduaneira (ou seja, com protecção exterior idêntica para todos os países-membros), tendo-se transformado depois (há cerca de vinte anos) num mercado comum (permitindo a livre circulação do capital e do trabalho). Tudo isto funcionou em benefício dos países participantes, que atravessaram uma longa prosperidade. Era, para além disso, um arranjo suficientemente flexível para que, por alargamentos sucessivos, a UE passasse dos seis membros originais para os actuais vinte e sete, tão diferentes.

Precisamente, a união monetária introduziu tensões onde elas não existiam (como parece anódino hoje o “quero o meu dinheiro de volta”, de Margaret Thatcher). Em sua consequência directa, e ficando cada país entregue ao respectivo nível de produtividade, alguns tornaram-se excedentários e outros deficitários nas trocas comerciais e nos pagamentos entre si. As duas únicas soluções rápidas para este desequilíbrio seriam o abandono da moeda única pelos deficitários ou então a assunção das suas dívidas pelos excedentários. Ninguém gosta da primeira solução, embora em nome do realismo fosse bom começar a pensar na sua eventualidade. Quanto à segunda, parece que os países excedentários não a apreciam. É verdade que o Presidente Van Rompuy afirmou há pouco tempo que “o Estado-nação homogéneo já passou à História”. No entanto, o Estado-nação homogéneo alemão (o único capaz de pagar esta factura) tem mostrado grande relutância em desaparecer – e sobretudo em pagar. Provavelmente precisará que lhe expliquem porque será um bom investimento enterrar fortunas em estados-nação homogéneos que, dentro do euro, tão cedo não sairão do buraco em que se enfiaram. Sem querer contrariar ninguém, esse sim talvez seja o caminho mais rápido para o fim da União Europeia.

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