O triunfo da vontade?

(Publicado no jornal Metro, 25/11/2010)

Nestes tempos desesperados para o país, o grande argumento que vai restando é o da “vontade”, da “coragem” (para “vencer desafios”), do “ir à luta” e “não dar tréguas” (não se sabe bem a quê nem a quem). Já há muito que vivemos nisto: José Sócrates foi eleito pela primeira vez explicando que o crescimento económico era apenas uma questão de “confiança”. Lembra aquelas tribos a quem tudo o que acontece resulta de fenómenos sobrenaturais. Se alguém introduz uma nota de realismo passa logo à categoria inclassificável de “pessimista” (se não mesmo, supremo horror, de “bota-abaixista”), para não dizer “inimigo” (sabe-se lá do quê: da pátria, do euro, do Estado social, da faiança das Caldas…). É o que resulta a quem se lembre de dizer, por exemplo, que 40 anos de investimento em Educação e políticas sociais não resolveram o problema da qualificação e da pobreza em Portugal; que um quarto de século de ideologia e prática das “reformas estruturais” não evitaram a pior década de desenvolvimento económico do país; que a participação no “projecto europeu” (em todos os seus domínios, como a moeda única, por exemplo) não foi suficiente para evitar essa década perdida… Persistir apenas na “vontade”, na “coragem”, no “ir à luta” e em “não dar tréguas” é tomar sucessivamente balanço e atirar-se contra a mesma parede uma e outra vez. Como aqueles bonequinhos dos jogos de computador que correm muito contra o mesmo obstáculo, quando o que é necessário é parar, pensar um bocado, encontrar o caminho escondido e chegar ao nível seguinte.

Estamos a rapar o fundo ao tacho de décadas de uma ideologia de transformação do país que entrou num beco sem saída. E acabámos num mau livro de auto-ajuda e motivação pessoal. É verdade que se trata da linguagem da época, mas talvez fosse altura de sair da adolescência e perceber que as escolhas que tomámos nos conduziram a um ponto em que nenhuma solução é boa, podendo nós apenas escolher de entre as menos más. E quanto mais tarde pior.

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