Um pesadelo europeu

(Publicado no Diário Económico, 13/11/2010)

A Alemanha terá dado, há duas semanas, o golpe final no mais recente grande sonho europeu. Ao propor, na cimeira de chefes de Estado de 28 de Outubro, em Bruxelas, a criação de um mecanismo europeu de salvação de estados endividados, mostrou os limites da solidariedade europeia. A Alemanha começou por recusar a perpetuação do actual mecanismo de estabilização do euro, para lá de 2013. Em alternativa, propôs a criação de um fundo permanente, mas a que juntou uma terrível condição: a concessão de empréstimos de salvação teria de vir acompanhada pelo reescalonamento da dívida do país beneficiado. Ou seja, o fundo apenas passaria à realidade se associado a um mecanismo de incumprimento do estado receptor do empréstimo. Isto significa que a Alemanha não está disposta a assegurar salvamentos incondicionais, ou mesmo salvamentos meramente acompanhados de austeridade. Para a Alemanha, os países beneficiados, mais os seus credores, têm de assumir a sua falência.

A mudança é crucial, porque mostra que a Alemanha não quer transformar o seu Orçamento do Estado no orçamento federal europeu, compensando com transferências as regiões em crise. Mostra também que não está disposta a abdicar do seu bem sucedido modelo económico nacional, produtivo e exportador, para o substituir por uma grande economia europeia ineficiente. A Alemanha está satisfeita por ser o que é, rodeada de países parceiros menos bem sucedidos e seus clientes. Quer continuar a ser o mesmo país e não atrelar a si a tralha das Itálias, Portugais e Bulgárias do continente, transformando-se numa grande Polónia de 500 milhões de habitantes. Claro que estamos apenas perante uma proposta, a ser aprovada pelos restantes países-membros, os quais aliás se mostraram muito desagradados com ela. Mas não deixa de demonstrar que a Alemanha prefere sacrificar o euro a continuar com os salvamentos incondicionais.

Tudo isto tem ainda o condão de tornar transparente a irrelevância da política nacional: um dia depois de acordado o orçamento que iria estabilizar as taxas de juro a pagar pelo Estado português, as taxas continuavam a galopar, e ainda continuam. E isto simplesmente porque esse acordo deixou de ter importância perante a notícia, no mesmo dia, daquelas propostas alemãs.

Estamos a chegar ao fim do lirismo que via na crise o pretexto ideal para a criação das finanças públicas europeias e de um “governo económico europeu”, que funcionariam como prelúdio ao nascimento da grande Nação europeia. Como foi possível imaginar que tal coisa nasceria sem gerar tensões incomportáveis? Por razões parecidas, a Europa esteve na origem de duas guerras mundiais. Há demónios que nunca desaparecem.

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