Dois anos é muito tempo

(Publicado no jornal Metro, 10/11/2010)

Quem não se lembra, há dois anos, da vinda do deus Rá (o sol do meio-dia), incarnado em Barack Obama. Era a salvação da Humanidade, mas também a criação de uma coligação americana para os séculos futuros, constituída por tudo o que é bom (negros, gays, hispânicos, jovens, mulheres, brancos iluminados) e que raiaria sobre o planeta. Vinte e quatro meses depois, a coligação desapareceu e venceu a direita. Na Europa, sucedem-se também vitórias da direita. A presidência Obama parece hoje uma entidade velha e gasta e a nova energia vem do inorgânico Tea Party.

Como sempre acontece com as vitórias populares da direita, o Tea Party vai sendo descrito como uma colecção de lunáticos e ignorantes. Já Thatcher e Reagan, que mudaram para sempre a paisagem política do mundo (sem exagero: contribuíram para a queda da URSS), foram vistos assim; no seu tempo, também Cavaco foi entendido da mesma maneira (o “homem sem biografia”, Soares dixit), e também ele mudou para sempre a nossa democracia. Não é seguro que o Tea Party seja algo do género, mas tem potencial para isso. Ao contrário de uma narrativa cansativa, nós não vivemos no “neoliberalismo”. Vivemos em regimes de Estado-providência (mesmo nos EUA), que temperam a liberdade política e económica com uma forte intervenção estatal. Por todo o lado, estes regimes estão ameaçados, dada a dificuldade em financiá-los. O Tea Party quer ser uma alternativa, com soluções desestatizadas.

A esquerda, que se sente sempre humilhada quando perde eleições, já tratou de explicar que a vitória do Tea Party é a garantia da reeleição de Obama: com tantos maluquinhos no Congresso, toda a gente vai votar nele em 2012. É capaz de ter razão, mas por outro motivo: com um Congresso mais virado à direita, Obama também vai ser obrigado a governar mais à direita, abandonando os seus próprios projectos lunáticos. Talvez Obama se transforme agora no Presidente bipartidário que prometeu ser na campanha e ainda não foi. E assim talvez ganhe mesmo.

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