Cavacos

(Publicado no jornal Metro, 4/11/2010)

O tempo do Cavaco primeiro-ministro está associado, na história da nossa democracia, ao período em que quase parecemos um país europeu estável e desenvolvido. Esse tempo foi uma verdadeira refundação da democracia. Com a maioria absoluta de 1987 acabou a balbúrdia que vinha de 1974 (ou, se quisermos, de 1976). Com o extraordinário crescimento económico de 1986 a 1992 aproximámo-nos como nunca (nos últimos 36 anos) dos países desenvolvidos. De repente, o país encheu-se de carros, estradas e casas novas. Se tivemos uma crise entre 1992 e 1994, logo a seguir regressámos a taxas de crescimento interessantes. Às maiorias absolutas de Cavaco não seguiu uma maioria absoluta de Guterres, mas uma quase maioria absoluta. Só que toda a gente se comportou como se fosse mesmo absoluta. O primeiro Guterres parecia uma continuação do cavaquismo, embora adocicado por um pouco de “sensibilidade social” e (como se dizia à época) “diálogo”.

Foi aqui que começou tudo a correr mal: o segundo Guterres, por razões obscuras, abandonou ao fim de dois anos e o primeiro-ministro seguinte, por razões muito menos obscuras, também não durou mais tempo. A maioria absoluta de Sócrates em 2005 pareceu um regresso ao cavaquismo original (com o apoio mais ou menos claro do então proto-candidato Cavaco), ajudado até pela imagem pouco dialogante do novo primeiro-ministro. Logo a seguir, o próprio Cavaco seria eleito Presidente. Só que agora, sob o Cavaco Presidente, não se deu a associação entre estabilidade política e crescimento económico do tempo do Cavaco primeiro-ministro. Pelo contrário, continuou o afastamento face aos países mais ricos que vinha do ano 2000 e prosseguiu o endividamento externo da nossa desgraça. E logo a seguir regressou também a instabilidade política.

Cavaco recandidata-se agora, quando tudo aquilo que representa e lhe garantiu a primeira eleição está ameaçado. O Cavaco Presidente arrisca-se a presidir ao fim do legado do Cavaco primeiro-ministro. Ele diz que “não se resigna”. Mas como?

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: