Novela orçamental

(Publicado no jornal Metro, 29/10/2010)

Certo como a morte e os impostos, existirá um orçamento mais ou menos dentro do género do apresentado pelo Governo. Ninguém compreenderia que, depois da novela venezuelana que foram as relações entre PS e PSD nos últimos tempos e depois de finalmente se sentarem à mesa (convocando mesmo o respeitabilíssimo Eduardo Catroga), nada resultasse. Seria o completo descrédito dos dois líderes, transformando-os em verdadeiros cadáveres políticos. Claro que eles gostam tanto de ter este orçamento nas mãos quanto um vulgar cidadão gostaria de segurar uma granada sem cavilha. Mas se o não aprovarem nunca mais serão ninguém na política portuguesa. Não é de excluir que prefiram isso a representarem o rosto do orçamento. Mas é improvável.

Mesmo que o façam, o orçamento aparecerá, forçado pelos credores do país e pelas instituições que garantem o maior pacote de salvação da História da Humanidade (a UE e o FMI), feito justamente para lidar com a ameaça que países como Portugal representam para o euro. Se as duas personagens nacionais não chegarem a um consenso, aquelas instituições vão continuar a precisar de um comité executivo para o plano de austeridade. O país encontrará então esse comité. Mas o mais provável é que não seja necessário.

No meio disto tudo, o que espanta é como o PSD, embora na oposição, vem conseguindo ficar associado a todos os programas de austeridade do Governo (PEC I e II, e orçamento de 2011, agora). As pomposas negociações para garantir a sua abstenção mais parecem reuniões do Conselho de Ministros do Bloco Central. A abstenção não precisa deste aparato. Este aparato seria preciso para votar a favor. Quando, para o ano, toda a gente começar a sentir os cortes de salários e os aumentos de impostos; quando novas medidas de austeridade forem necessárias, o PSD será também visto como culpado. E afinal apenas se terá abstido. Não fosse esta trapalhada auto-inflingida e, à hora actual, já o PSD poderia andar a explicar o que faria de diferente.

Nota: escrito antes de concluídas as negociações orçamentais.

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