A salvação pela Europa

(Publicado no jornal Metro, 21/10/20101)

Tem-se ouvido muita gente a implorar a salvação do país pela Europa. No corrente contexto, isto só pode significar a salvação do país pela Alemanha, o único membro da UE com meios económicos e financeiros para o fazer. Normalmente, os pedidos angustiados de solidariedade alemã vêm em duas formas: uma, que a Alemanha aumente a procura agregada de forma a absorver mais produtos dos países com défice de pagamentos internacionais (entre os quais se conta Portugal); a outra, que se predisponha a fazer transferências de pagamentos, os quais corresponderiam no fundo a subsídios ao rendimento dos mesmos países deficitários.

Infelizmente, estas presumíveis soluções parecem-se muito com outros problemas. Há o trauma inflacionista da Alemanha: os alemães identificam (certa ou erradamente: o que conta aqui é a “psicologia colectiva”) a crise inflacionária nos anos 20 com a chegada de Hitler ao poder, o que dificulta a primeira “solução”. Para além de que ela implicaria pedir à Alemanha que perdesse a disciplina monetária que caracterizou a vida do marco e (até agora) do euro. No dia em que a Alemanha adoptasse um programa inflacionista, o euro deixaria de parecer o marco para passar a parecer-se com o escudo. Por isso, a Alemanha apenas faz aquilo que já está a fazer: garante a salvação do euro, mas exige que os países deficitários se disciplinem.

A segunda “solução” corresponderia a uma solidariedade a que os alemães não se sentem obrigados. Eles puderam fazer isso com a Alemanha de Leste. Mas a Alemanha de Leste era ainda a Alemanha. Que dever de solidariedade deve a Alemanha sentir por Portugal? Claro que isto se resolveria com um orçamento federal europeu, ao estilo do existente nos EUA. Mas o orçamento federal em que toda a gente está a pensar é uma impossibilidade na ausência de uma democracia europeia. Essa democracia não existe (não existe um “povo europeu”) nem existirá no tempo útil para combater esta crise. É capaz de ser melhor procurar noutro lado.

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