O FMI

(Publicado no jornal Metro, 23/10/2010)

Por estes dias tem-se ouvido falar muito do “FMI”. Assim um pouco como o papão das crianças que não comem a sopa. A moral destas evocações é exactamente essa: se o país não se porta bem, vem aí o “FMI”. A razão para isto é a continuação da aparente trajectória insustentável das contas públicas. Foram divulgados, no início da semana, os resultados da execução orçamental até Agosto, que mostram um défice fora dos compromissos do PEC. Eis o que bastou para se começarem a ouvir as coisas mais horríveis: que se têm de cortar salários nominais na função pública, que se tem de continuar a cortar nas despesas sociais… Em favor destas brutalidades, convoca-se a austeridade da Grécia, da Irlanda e da Espanha, esquecendo-se de dizer que a Grécia continua a bater todos os recordes de juro da dívida pública, que a Irlanda paga o mesmo que Portugal e que só a Espanha parece estar a passar (quase de certeza temporariamente) por entre as gotas de chuva.

Ocorre que o FMI não tem à sua disposição, nas condições da Zona Euro, os instrumentos que historicamente fizeram o sucesso dos seus programas de estabilização, combinando austeridade e expansão. A austeridade resultava dos cortes na despesa pública, a expansão da desvalorização da moeda, para fomentar as exportações. A desvalorização funciona como uma redução dos salários reais, com efeitos virtuosos que os cortes de salários nominais da função pública não têm. Estes apenas deprimem o poder de compra, aquela favorece o aumento da competitividade, dessa forma compensando os efeitos de contracção. Ora, na Zona Euro, a desvalorização específica da moeda nacional está excluída por definição. A chegada do FMI pode, portanto, não trazer qualquer perspectiva de solução dos problemas de crescimento, défice e dívidas pública e externa.

A ser assim, o FMI nem sequer seria o providencial pai tirano com que tantos sonham, pondo a casa em ordem com muita pancada. A ser assim, ter-se-ia de pensar em coisas ainda mais inimagináveis.

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