Mais um candidato

(Publicado no jornal Metro, 1/7/2010)

Será que toda a gente reparou que existe mais um candidato à Presidência? Chama-se Mário Soares e, por estes dias, opina sobre tudo. À segunda tece mais umas considerações sobre a “crise e o capitalismo de casino”. À quarta explica que a crise é europeia. À sexta que a solução é a federação europeia. No sábado e no domingo, uma série de personalidades de regime prestam-lhe vassalagem em Arcos de Valdevez. Precisamente em Arcos de Valdevez, confessa não se sentir “habilitado” a dar conselhos ao primeiro-ministro. Mas não se poupa nas críticas ao Presidente Cavaco. Ao mesmo tempo, diz que não gosta de homenagens e que só aceitou a de Arcos porque o “amigo” (!?) José Saramago o aconselhou. Caso ninguém tenha percebido, trata-se do mesmo Saramago ao funeral do qual Cavaco faltou. Evento que se transformou numa espécie de funeral de Guerra Junqueiro, uma celebração do regime, que mostrou onde está Cavaco em relação a ele (ao regime, quer dizer). Para que tudo se torne ainda mais claro, a viúva de Saramago envia uma mensagem à mesma homenagem de Arcos de Valdevez.

Claro que Soares não é exactamente candidato. Mas tanta actividade faz uma pessoa perguntar-se sobre se, caso Manuel Alegre não tivesse avançado há muito tempo, ele não quereria mesmo candidatar-se. Tal como as coisas estão, limita-se a patrocinar a candidatura de Fernando Nobre (que aliás também picou o ponto em Arcos). Excepto por duas razões, toda esta actividade é muito intrigante. O PS e a esquerda já têm o seu candidato oficial, precisamente Manuel Alegre. A candidatura Nobre-Soares serve apenas para dividir a esquerda. Porque quer Soares dividir a esquerda? Uma razão seria mesquinha e não pareceria adequada à grandeza pessoal e institucional do homem: ainda ferido pela humilhante derrota que Alegre lhe infligiu há cinco anos, quer ele agora humilhar Alegre. A outra razão seria uma genuína preocupação em ver o PS nas mãos do Bloco de Esquerda, que é na realidade o grande patrocinador da campanha de Alegre. Interessante é ver o candidato Cavaco Silva agradecer tudo isto, já que pode ele apresentar-se como o único ao centro (que até dá brindes à esquerda, como o casamento gay). Soares quer tão pouco ver Alegre em Belém (seja por razões pessoais, seja por razões políticas) que parece não se importar com a permanência de Cavaco, esse homem que não é de “cultura” nem do “regime”.

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