Bicicleta em voo picado

(Publicado no jornal Metro, 12/5/2010)

A crise financeira da Europa é também a sua crise política, o que não acontece por acidente. É o resultado da maneira como nos últimos 20 anos se procurou re-fazer a UE. Durante a Guerra Fria, a UE (então CEE) era entendida como uma comunidade de estados independentes, unidos pela liberdade de comércio, por alguma homogeneização legal e pela protecção militar americana. Já então existia a tendência para fazer dela um grande estado nacional concorrente com os EUA, mas foi a partir dos anos 90 (desaparecida a “ameaça soviética”) que se transformou praticamente no programa único, embora sempre um pouco encoberto, da maior parte dos dirigentes europeus. Daí os permanentes saltos constitucionais em que o projecto se viu envolvido: mercado único, moeda única e Constituição – de que o Tratado de Lisboa é uma forma reduzida.

Isto transformou a UE numa espécie de processo revolucionário em curso (ou um PEC: Processo Europeu em Curso), sempre em crise, sempre em mudança, sempre alterando o quadro de vida das comunidades políticas que a compõem. As metáforas usadas dizem tudo: a “Europa não pode parar” ou a “Europa é como uma bicicleta: se pára, cai”. Desde então, a UE vive em permanente processo constituinte, o contrário do que define uma comunidade política pacífica e próspera. Os processos constituintes devem ser violentos e rápidos, para se alcançar o compromisso que todos aceitam duradouramente.

Agora que se multiplicam as ameaças, seria talvez a boa altura de parar a bicicleta, para que ela não continue a descer a colina desgovernada. Mas não é essa a vontade dos nossos vanguardistas: já deram um “novo salto em frente” (o que soa a maoísta e não é por acaso), com um programa de salvamento das dívidas nacionais sem precedentes históricos, o qual querem ver terminar numa “dívida europeia” e num “governo económico europeu”. É a fuga para a frente. Que parece que só vai acabar quando a bicicleta se esborrachar completamente contra uma parede.

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