Blocos centrais

(Publicado no jornal Metro, 6/5/2010)

Dos mais variados e surpreendentes lados suplica-se por um Bloco Central, para resolver a crise financeira e económica. Há mesmo aqueles, particularmente desesperados, que pedem que o CDS se junte aos outros dois. O argumento é que só medidas difíceis salvariam o país, sendo para isso necessária uma frente nacional unida “respeitável”. O modelo parece ser o das bem sucedidas (embora difíceis, realmente) experiências de 1978 (Governo PS-CDS) e 1983-1985 (Bloco Central propriamente dito), que serviram para impor as medidas associadas aos empréstimos do FMI.

Convém no entanto lembrar que essas experiências governativas tiveram êxito na aplicação dos programas de estabilização porque se associavam a um horizonte de solução mais ou menos próxima. As medidas eram drásticas no corte da despesa pública e do crédito bancário, mas abriam um caminho de expansão do lado das exportações, mesmo se pela “porta do cavalo” da desvalorização. Nada disso é perceptível agora: cortar serviria apenas para continuarmos a pagar juros de dívida a preços moderados, sem que se vislumbre uma saída para a estagnação económica que já dura há uma década. É pior: provavelmente, as actuais propostas de “medidas difíceis” arriscar-se-iam a funcionar ao contrário do pretendido. A economia não cresce pela exportação, graças a uma moeda (o euro) de valor demasiado elevado para a sua produtividade. A única escapatória para o crescimento seria a procura interna. Como as “medidas difíceis” cortam a procura interna, nem sequer é claro que gerassem suficientes receitas fiscais para pagar a despesa, assim se comprometendo todo o esforço. Algo que já é visível na Grécia, a qual segue uma receita do mesmo género daquela que agora se propõe para nós: quase todas as semanas o crescimento é revisto em baixa e o défice em alta.

Então o Bloco Central não serve para nada? Talvez sirva. Talvez sirva para irmos ao fundo todos muito agarradinhos, o que, imagino, sempre conforte um bocadinho.

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