Conspirações especulativas

(Publicado no jornal Metro, 29/4/2010)

O que mais espanta neste caso da crise europeia, de que a Grécia (e agora Portugal) é apenas um episódio, é o misto de voluntarismo e conspiração com que tanta gente o enfrenta. A Grécia, Portugal e a Europa não seriam senão vítimas de “ataques especulativos”, ou de uma “orquestração anglo-saxónica”(!?), visando em última instância “destruir o euro”. Para vencer estas tenebrosas forças, seria apenas necessário continuar a “combater” com muita “vontade”. Normalmente, o que isto significa é pedir a alguém que desembolse o dinheiro necessário para cobrir dívidas, de preferência sem condições. Neste ambiente lunático, há poucas vozes razoáveis: Helena Garrido, no Jornal de Negócios, não se junta ao coro conspiracionista, mas pede que a UE ajude a Grécia (e Portugal, quando necessário) com um programa “à FMI”, ou seja, um empréstimo associado a um choque negativo rápido, restabelecendo a capacidade de crescimento.

Na zona euro, no entanto, não existem condições para um programa “à FMI” sem consideração de uma variável: a desvalorização da moeda nacional. Ao contrário da fama, os programas do FMI não se limitavam a ser um esforço sádico de punição rápida para limpar o caminho. Aqueles programas baseavam-se sobretudo na ideia de restringir a procura interna (reduzindo a despesa pública e o crédito para consumo), impulsionando ao mesmo tempo a procura externa, por via da desvalorização.

A Grécia lá accionou o pedido de ajuda UE/FMI na sexta-feira. Mas não custa antecipar que pouco resolva. Não só o montante está longe das necessidades como, sobretudo, não é oferecido um caminho de regresso rápido ao crescimento que permita saldar a dívida num prazo razoável. Salvo erro, em breve voltaremos a ouvir falar de incumprimento e de saídas do euro. Como se gosta de dizer, Portugal não é a Grécia, mas convém perceber que os seus problemas fundamentais são os mesmos: endividamento externo insustentável e incapacidade para o cobrir nas actuais circunstâncias.

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