Pobre Estado

(Publicado no jornal Metro, 25/3/2010)

Diz que a esquerda (incluindo agora uma presumível “ala esquerda” do PS) anda desgostada com as brutalidades sociais do PEC. Não quero ser o arauto das más notícias, mas será o primeiro de muitos desgostos. Já todos temos saudades daquele tempo longínquo (julgo que há seis meses) em que estávamos perante o “regresso do Estado”, espécie de Super-Homem resgatando a humanidade das garras maléficas do “neoliberalismo”, sob a forma particularmente repulsiva do “capital financeiro”. Confesso que nunca percebi como é que ajudar o “capital financeiro” com empréstimos e garantias estatais era combatê-lo. Mas enfim, eram outros tempos.

É que agora é o pobre do Estado a precisar de assistência. Sempre me pareceu que a principal vítima da crise financeira não seria o fantasmagórico “neoliberalismo” (que ninguém ainda explicou o que é) mas o Estado-Providência ocidental. A esquerda não reparou que o recente crescimento do “capital financeiro” anterior à crise era já uma forma de assistência (ou de outsourcing, como agora se diz) ao Estado-Providência. Foi o “capital financeiro” que permitiu a compra de casa própria para quase todos; foi o mesmo “capital financeiro” que permitiu a compra de carro para o povo; foi ainda o “capital financeiro” quem pôs cartões de crédito no seu bolso. Não surpreende assim que quando o “capital financeiro” precisou de ajuda para enfrentar dificuldades o Estado viesse tão pressuroso ajudá-lo.

Agora que não há dinheiro para tudo (garantir o bem-estar da população e salvar o “capital financeiro” ao mesmo tempo), resta cortar. Não começou hoje: a reforma da Segurança Social de 2006 em Portugal, por exemplo, significou uma diminuição real das pensões. Que continua neste PEC. O Estado-Providência, criado na promessa de prosperidade para todos, vem-se transformando num instrumento de empobrecimento de todos. E se não me engano, assim vai continuar. Disse-o o ministro das Finanças: “a melhor forma de destruir o Estado social é levá-lo à falência”.

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