“Telefona-me aí a esse malandro”

(Publicado no jornal Metro, 11/2/2010)

O caso do complot para controlar a comunicação social tem gerado grande comoção. É legítimo. Mas talvez valha a pena sobre ele ter um outro olhar. Episódios equivalentes abundam na História da nossa democracia. Há uns anos, um antigo militante do PS, Rui Mateus, publicou um livro cheio de relatos edificantes sobre uma bem consistente estratégia de Mário Soares para criar um grupo de comunicação. A jornalista Estrela Serrano, também há uns anos, publicou uma tese de doutoramento sobre a relação do Presidente Soares com os jornais. Mais uma vez, por lá se multiplicam as histórias de “pressões”, cujo resumo cabe na frase do Presidente, pelos vistos usada abundantemente: “telefona-me aí a esse malandro”. Não consta que tenha dado origem a grande reacção. Foi até encarado com benevolência respeitosa. O período do cavaquismo (i.e. do Cavaco primeiro-ministro) também está recheado de histórias e rumores sobre infelizes jornalistas ameaçados na sua liberdade opinativa. A PT sempre foi usada para fins equivalentes: para que serve a famosa Golden Share que o Estado lá tem? Isto para não falar dos telejornais da televisão pública. E dos “homens de meios” sempre dispostos a ajudar um qualquer “amigo” político comprando ou criando jornais.

Em suma, “telefonar a malandros” é o desporto favorito do político português. Mais grave é o que resulta politicamente do caso do complot. A alternativa ao PS, o PSD, vem cavalgando uma espécie de “anti-fascismo” de direita, que apropriadamente culmina hoje numa manifestação. Preocupante é o vazio que isto revela. Não tendo a estratégia resultado nas urnas, continuou depois. Mas o que muita gente se pergunta é o que tem o PSD a oferecer de diferente para governar um país que chegou a um grau muito elevado de disfuncionalidade política, económica e social. Infelizmente, não se vê muito. O caso do complot revela a irrelevância do PS. Mas também o da sua presumível alternativa. Bem fizeram a cama em que nos vão meter.

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