O estado actual da obamofilia

(Publicado no jornal Metro, 28/1/2010)

Passou um ano sobre o evento que ia mudar a História do mundo, a chegada de Barack Obama à presidência dos EUA. Passou um ano e nunca a aprovação pública de um presidente se reduziu tão rapidamente no seu país. Como foi possível passar-se da admiração estratosférica de há doze meses para a corrente decepção? Haverá muitas razões, mas uma particularmente importante terá que ver com a interpretação do significado da palavra-chave da campanha: “change”, “mudança”. Para muitos votantes em Obama (de direita e de esquerda), “mudança” significava uma efectiva mudança relativamente aos códigos políticos tradicionais. Obama podia personificá-los: era o primeiro candidato negro que não se socorria da retórica de vitimização negra, era o homem de esquerda que louvava Reagan e o homem de esquerda que afirmava querer acabar com as divisões estéreis entre esquerda e direita. Mas uma vez eleito, passou a uma interpretação mais restrita da palavra. Mudança era apenas mudança face aos anos de Bush. De repente, como uma viagem no tempo, estávamos de novo na segunda metade dos anos 90: os Clinton enchendo os ecrãs de televisão, velhas luminárias desses tempos (de Al Gore para baixo) desmultiplicando-se em aparições, um novo plano de saúde (como o velho de Hilary), etc. E depois, longe da ponte com o outro lado político, Obama governa (tanto interna quanto externamente) de acordo com os mais estafados clichés da esquerda americana.

A recente eleição de um senador republicano pelo Massachussets (uma espécie de eterna coutada democrata) é um primeiro sinal da mudança contra a mudança de Obama. O Massachussets não podia votar republicano. Mas a traição ao mote da “mudança”, juntamente com a típica auto-indulgência democrata e a pose de direito natural ao poder (que Obama tão bem adoptou uma vez eleito), tornaram o impossível possível. O eleitorado americano anda à procura de verdadeira mudança. E talvez não tenha acertado com Obama. Ele que se cuide.

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