Regresso à normalidade

(Publicado no jornal Metro, 17/12/2009)

Era evidente. E só não se percebe como pôde o Presidente da República cometer a terrível asneira de, a propósito do caso das “escutas a Belém”, vir para a televisão queixar-se não se sabe bem de quem. A conjuntura política é-lhe muito favorável: o Governo não se apoia numa maioria absoluta parlamentar e não consegue apoiar-se numa maioria de esquerda operativa. A famosa alocução ao país não o fez senão perder tempo e obrigá-lo a um posterior esforço de recuperação de popularidade. Mas o Governo (e o PS) ofereceu-lhe agora de bandeja uma oportunidade, que o Presidente não desperdiçou. O patético pedido para que ele pusesse termo à “ameaça de ingovernabilidade”, levou a resposta adequada: governar apoiado numa maioria relativa não é um drama; é só preciso saber fazê-lo. O pedido não foi nenhum disparate. Tratou-se de jogar com a célebre “fragilização” do Presidente, encostando-o à parede e obrigando-o a socorrer o Governo, pois outra reacção poderia ser entendida como hostilização. Mas não funcionou: o Presidente soube libertar-se do falso abraço, aproveitando para reaparecer com a “dignidade presidencial” restaurada.

Como já aqui disse antes, é praticamente uma lei da natureza do sistema político português: se não há maioria parlamentar, o centro passa a ser o Presidente. Não há nada de original nisto, só não se percebe como tanta gente o esqueceu, depois de 20 anos de maiorias absolutas ou quase. Passado o lirismo com que o resultado das eleições foi interpretado (que era o “reforço do parlamento”, a “recuperação da dignidade parlamentar do regime”, etc.), regressou aquilo que era típico antes de 1987: o descrédito dos deputados e da “classe política”, envolvidos em escândalos e pequenas e disparatadas querelas, incluindo insultos baratos – “palhaço”, por exemplo. E o Presidente como “reserva” de dignidade do sistema. Foi onde voltámos. Resta saber se continuamos ou saímos (como já antes saímos) e por onde saímos (se sairmos).

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: