Como se eu fosse muito burro

Não me apetece particularmente discutir questões judiciais. Em teoria elas só são claras quando há condenados. Acresce que a Justiça já perdeu qualquer inocência. Na verdade, já ninguém anda a falar de justiça, e nem sequer anda a falar de política. Anda a falar de um monte de tipos embrulhados numa luta de lama. Mas gostava de perceber uma coisa: quando se descobrem acidentalmente indícios conducentes a uma suspeita, como se pode iniciar uma investigação?

Para dar um exemplo estritamente hipotético: imaginemos que o vice-presidente do segundo maior banco de um país está a ser investigado por favores ilegais a um empresário de resíduos industriais. No prosseguimento da investigação, descobrem-se indícios de que o primeiro-ministro do país teria tentado que o vice-presidente levasse o banco a subsidiar (pelo perdão de dívidas e outras coisas do tipo) um grupo de comunicação social em dificuldades financeiras, grupo esse conhecido por ser bastante simpático para com o primeiro-ministro, tendo mesmo até tido intervenção determinante em eleições recentes. Não há matéria para iniciar uma investigação? Julgo que o crime aqui exemplificado se chama tráfico de influências, e colocaria muito em causa: a concepção de exercício do poder do primeiro-ministro, a política de colocação de administradores em bancos privados com participação do Estado, os fins para que são colocados esses administradores e, finalmente, a independência da comunicação social privada face ao governo. Eu sei que tudo isto é meramente hipotético, mas não há matéria para iniciar uma investigação?

Entretanto, e ainda no domínio das hipóteses, imaginemos que, por portas travessas, os indícios se tornavam públicos e toda a gente passasse a saber. Toda a gente sabe e não se pode iniciar uma investigação? Quem descobriu os indícios não a pode iniciar, porque os indícios são considerados nulos. Mas existem. E toda a gente sabe. A coisa fica assim? Gostava que me explicassem como se eu fosse muito burro.

E claro que tudo isto tem relevância política: a ser tudo verdade, sabe-se que o governo desse país usa meios extra-legais para obter vantagens políticas; sabe-se que um dos maiores jornais desse país na verdade não é independente do governo, o que até vai contra o princípio de concorrência – afinal, um grupo de comunicação social privado será salvo pelo Estado, se oportuno; os outros jornais não deveriam ficar contentes com isto; sabe-se que as decisões empresariais dos bancos podem ser tomadas para favorecer caprichos do governo – sendo cliente de bancos, a população gostaria certamente de saber onde o dinheiro que lá deposita está a ser utilizado. E se o banco for à falência?

Enfim, mas tudo isto são fantasias de quem não tem mais nada que fazer.

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