Não é assim que se fazem as coisas

(Publicado no jornal Metro, 29/10/2009)

Aproxima-se novo ano e novo orçamento e logo começam os oráculos económicos. A receita é típica e este ano não foi excepção: economistas, empresários, banqueiros centrais e políticos recomendam “moderação salarial”. Faz lembrar um número estafado de circo: nada resulta? Moderem-se os salários. Este ano, no entanto, parece um pouco obsceno pedir-se moderação salarial. Gastaram-se os últimos dois anos a subsidiar bancos que fizeram decisões tragicamente erradas. Foi espantoso: ao primeiro sinal de resultados maus, os arrogantes banqueiros puseram-se em bicha, de gamela na mão, para receberem o apoio do contribuinte. Neste momento, o desemprego em Portugal vai nos 9%, a economia não cresce e o endividamento nacional chega a 100% do PIB. Em tudo isto, o sistema financeiro teve (e tem) culpas enormes. O preço está a ser pago agora e vai ser pago no futuro, por via da dívida. E vai ser pago também através da desautorização intelectual e política das medidas ditas “impopulares”, bem como da enorme redução da economia de mercado. Entretanto, com o regresso dos bons resultados (à conta dos subsídios estatais), os bancos são o último sítio onde a moderação salarial se pratica.

Sejamos claros: o sistema financeiro tal como está é uma ameaça maior à economia de mercado e mesmo à democracia do que um conjunto de ordeiros trabalhadores tentando levar o melhor salário para casa. Toda a gente compreenderia a necessidade de moderação se, noutros quadrantes, se visse responsabilidade. Os funcionários públicos portugueses aceitaram uma década de crescimento zero ou mesmo negativo do seu salário sem grandes protestos, porque compreendiam a necessidade de resolver o problema orçamental. Todos compreenderiam a moderação salarial agora, se houvesse uma reforma profunda do sector financeiro, que aliás está já a alimentar a próxima bolha (ou seja, a próxima crise) pelo mundo fora. Se salvaram os bancos, os contribuintes devem agora impor as suas condições.

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