O que é nacional é bom

(Publicado no jornal Metro, 15/10/2009)

Como é hábito em noite de Autárquicas, lá se ouviu ad nauseam que os resultados não poderiam ter uma “leitura nacional”. É verdade que o número de votantes não é generalizável: sendo as eleições bipolarizadas, o conjunto de votantes (digamos) de Lisboa decide o destino da câmara mas também inflaciona os que votam nos maiores partidos. Mas talvez haja “leituras nacionais” um pouco mais subtis.

Tomemos de novo o caso de Lisboa. Em Lisboa verificou-se com muita clareza uma frente de esquerda informal. Todos os contributos de trânsfugas à esquerda do PS foram importantes para a vitória de António Costa. Sem o contributo dos “voluntários” de Helena Roseta, dos simpatizantes do “Zé” (originalmente do BE) e até, in extremis, dos seguidores do “cacique” sindical Carvalho da Silva, Costa não teria vencido. Não é precisa a teoria da conspiração de Santana Lopes para aceitar estes factos. Ora, estes factos apontam para uma interessante “leitura nacional”: e se afinal o “compromisso à esquerda” fosse possível? Eu continuo a acreditar que não é, pelo menos formalmente (e Lisboa não o desmente). Mas o mesmo já não é verdade para a eleição do Presidente da República, onde a radicalização esquerda-direita é mais fácil. E uma vez obtida a presidência tornar-se-ia possível replicar a radicalização no parlamento. Bastaria então uma pequena crise de governabilidade para levar a novas eleições em que, num ambiente extremado, o PS seria o maior beneficiário – repare-se como em Lisboa conseguiu esvaziar o BE e, parcialmente, a CDU.

É esta a interessante “leitura nacional”: o PS quer continuar a governar sem grandes limitações. Sendo impossível a repetição da plataforma centrista anterior, a melhor estratégia passa para a esquerda. Para facilitar o plano, basta continuar a promover a divisão do PSD, coisa a que, de resto, o próprio se entrega com óbvio deleite. A questão é saber se vai funcionar. Mas para o PS tudo é melhor a ter de ficar dependente do PSD ou do CDS.

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