Morte a crédito

Vi aqui que a prestigiada revista científica Nature propõe uma redefinição legal da morte, com o propósito de facilitar a disponibilidade de órgãos para transplante. É típico de um certo utilitarismo, que também está presente em algumas defesas do aborto livre (facilita-se na definição da vida em nome de razões sociais ou outras). É típico também de um certo utilitarismo científico, para quem o presumível “avanço” do “conhecimento” dispensa convenções sociais fundadas na tradição e no senso comum. Hoje, prefere-se lembrar apenas os horrores cometidos pelas religiões e pouca gente gosta de lembrar os horrores cometidos pela ciência, em nome do “saber” – o único prémio Nobel científico ganho por um português até consagrou um desses horrores. É típico também de certas atitudes intelectuais, para quem tudo é sempre “um pouco mais complexo” do que a massa ignara imagina. É evidente que a morte, como a vida, são “processos complexos” (como diz o editorial da Nature). Mas muitas decisões na vida têm de ser simples. São binárias: sim-ou-não ou morto-ou-vivo. No caso da vida e da morte, julgo que a única atitude razoável é não nos deixarmos contaminar por atitudes utilitárias. Todos os obstáculos devem ser postos a facilitar na definição da morte ou da vida. Os iluminados perguntar-me-ão: mas onde se funda cientificamente essa atitude? Lá está, não funda. Mas como dizia o velho bardo: “there are more things in heaven and earth than are dreamt of in your philosophy”.

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