A morte do pai

(Publicado no jornal Metro, 1/10/2009)

A declaração do Presidente da República é a todos os títulos trágica. Desde logo porque, numa altura em que o parlamento fragmentado saído das eleições de domingo mais apelava a intervenções sóbrias do Presidente, ele vem inflamar o conflito com a maioria. Trágica também porque o resultado das eleições voltava a entregar o ascendente ao Presidente nas relações com a maioria relativa: um qualquer entendimento PS-BE radicalizava a paisagem política e encostava o Presidente à direita; mas no domingo, o povo português na sua infinita sabedoria (sempre quis usar um dia este maravilhoso cliché) não ratificou o plano. Com o papel de kingmaker entregue ao CDS, o cenário de radicalização desvaneceu-se e já não interessava ao PS hostilizar o Presidente, bem pelo contrário. O Presidente tinha a oportunidade de restabelecer a sua credibilidade, que se viu afectada pelos “episódios” das últimas semanas, e tinha a oportunidade de devolver alguma sanidade ao regime. Em vez disso, tornou explícito o conflito que andava surdo entre órgãos de soberania. Isto é, quando o cenário de radicalização tinha saído de cena, o Presidente voltou a introduzi-lo. A esquerda tentou encostá-lo à direita, o povo desencostou-o e ele voltou a encostar-se.

Impossibilitado o cenário de bloco central para a sua reeleição (dado o grau de desconfiança com a direcção do PS), o Presidente volta-se para a direita que tanto enjeitou. Depois de tirar o tapete ao PSD e imolar publicamente Fernando Lima (ter-se-á este auto-imolado, em nome da Pátria?) vem agora pedir implicitamente aos partidos de direita que sejam a sua maioria presidencial. Ou seja, lança sobre eles essa responsabilidade. Mas é do seu interesse resistirem a esse apelo da sereia. A sombra do cavaquismo paira sobre o PSD e o CDS desde 1994. Está na altura de a deixarem para trás e partirem noutra estrada. Tal como na velha história de Freud, depois da identificação inicial, é preciso matar simbolicamente o pai para crescer.

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