Compilação IV

Quem sabe?

(Publicado no jornal Meia Hora, 22/1/2009)

Quer-me parecer que uma das ideias mais perniciosas para o PSD que ultimamente ganhou curso em certos círculos do partido foi a de que ele deveria voltar a adquirir “credibilidade”. O partido foi assim dividido em dois lados irremediavelmente opostos: os “credíveis” contra os “não-credíveis”. Claro que isto alienou uma enorme parte do PSD (a dos presumidos “não-credíveis”). Como julgam os “credíveis” contar com o apoio dos “não-credíveis” para batalhas como as próximas (e seguintes) eleições? Alguns dirão que não querem esse apoio. Mas então talvez se tenham enganado de partido.

Porque esta distinção faz pouco sentido por outros motivos mais profundos. Primeiro, vai contra a natureza do PSD, que sempre foi uma mistura de partido de “quadros” e de partido popular. Os “quadros” seriam os “credíveis”. Só que um partido exclusivamente feito de “quadros” corresponderia a uma espécie de duplicação do CDS, ou então a algo de parecido com um Bloco de Direita, um bocadinho menos ideológico. Já ninguém se lembra, mas Cavaco, nos seus tempos iniciais, fazia parte dos “não-credíveis”. Em segundo lugar, a distinção faz pouco sentido porque, na verdade, os “credíveis” já tiveram a sua hora e revelaram então muito pouca credibilidade. Os “credíveis” transformaram o Governo Santana Lopes em bode expiatório do seu fracasso de 2005. Mas o mal já vinha do Governo Barroso, quando o dito Barroso, numa das alturas mais difíceis do país, não resistiu a fugir das suas responsabilidades, depois de dois anos de governação no mínimo titubeante.

Deve ser engano, mas pareceu-me recentemente que Manuela Ferreira Leite terá começado a perceber isto: entregou a Santana Lopes a candidatura à câmara de Lisboa e, no outro dia, estendeu a mão a Passos Coelho. Parece também ter esboçado um princípio de programa alternativo (coisa que até agora ainda não tinha feito, provavelmente com excesso de preocupação em distinguir-se dos “não-credíveis” do seu próprio partido), ao opor-se com clareza ao TGV e sugerir uma redução de impostos. Em termos de programa seria talvez preciso mais, mas é um esboço. Sobretudo talvez fosse interessante, quando toda a gente propõe como as únicas medidas possíveis contra a crise aquelas que inundam a economia de dinheiro, apresentar um plano de saída destas medidas, as quais, a prazo, significam uma grande machadada na economia de mercado. Deve ser engano. Mas, quem sabe?

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